Tiago Queiróz
Tiago Queiróz

Estreante em Tóquio, escalada esportiva ganha impulso para crescer no Brasil

Mundial da modalidade começa no domingo com a missão difícil de buscar vagas para a Olimpíada

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2019 | 04h30

Até o ano passado, Thais Makino Shiraiwa conciliava a escalada esportiva com o trabalho de assistente de Fotografia. Como tinha de pagar as viagens para os torneios do próprio bolso, a atleta de 31 anos precisava fazer outra coisa da vida. A escolha da escalada como modalidade olímpica em Tóquio – além do surfe, caratê, beisebol e skate – mudou a vida de Thais. Hoje, ela deixou a fotografia e será uma das esperanças do Brasil no Mundial da modalidade que começa neste domingo, no Japão. O torneio distribui sete vagas para Tóquio.

A trajetória da campeã brasileira retrata, com maior ou menor proximidade, a história de cerca de 60 praticantes que disputam um lugar na seleção brasileira. Considerando-se os amadores, o número chega a 500 escaladores. Números modestos. Até 2014, os atletas não tinham garantia de que o Campeonato Brasileiro duraria o ano todo. Raphael Nishimura, presidente da Associação Brasileira de Escalada Esportiva (ABEE), entidade que organiza o esporte e é filiada à International Federation of Sport Climbing (IFSC), reconhece que a modalidade ainda está engatinhando no País.

Neste cenário, o País tem poucas chances de conquistar uma das vagas olímpicas que são oferecidas no Mundial de Escalada Esportiva, a partir de domingo, no Japão. O prognóstico melhora um pouco nos Jogos Pan-Americanos da modalidade, que serão disputados em fevereiro nos Estados Unidos e valerá mais duas vagas, uma para cada sexo.

Um entrave para a popularização da escalada no país é a crença de que é um esporte perigoso. “Com a Olimpíada, as pessoas vão entender que não é um esporte de alto risco. Com responsabilidade e conhecimento, não tem perigo”, diz Thais.

Dirigentes e escaladores apostam na escolha para Tóquio como um grande salto para a modalidade. Essa esperança se apoia, entre outros fatores, no orçamento anual da ABEE. Antes de ser uma modalidade olímpica, o orçamento anual era de R$ 12 mil, gerados com as mensalidades dos associados. Hoje, com a ajuda do COB, a verba anual subiu para R$ 700 mil.

Nesta onda, a seleção brasileira conquistou seu primeiro patrocínio: a Prudential do Brasil, seguradora independente no ramo de vida. O patrocínio vai permitir aos atletas melhores estruturas para treinamentos, uniformes e logística em viagens durante as competições. De acordo com a vice-presidente de Marketing & Digital da Prudential do Brasil, Aura Rebelo, a escolha da Escalada Esportiva para o patrocínio tem tudo a ver com a companhia. “Nossa marca é o rochedo de Gibraltar, símbolo de força, segurança e proteção, atributos que também são indispensáveis neste esporte”, avalia a especialista.

Janine Cardoso, diretora técnica e de planejamento da ABEE, explica que uma das estratégias de crescimento é apostar nos jovens competidores para garantir torneios de base e a renovação da seleção brasileira para as próximas competições. “Queremos estimular os jovens”, diz Janine.

Thais começou quando era criança. Seus pais descobriram o esporte durante uma viagem de turismo para a Pedra do Baú, ponto importante localizado em São Bento do Sapucaí, do interior de São Paulo, vinte anos atrás. Eles presenciaram escalada na rocha – na Olimpíada e no Mundial, a disputa é indoor, em ginásios fechados. Mesmo aos 64 anos, Goro Shiraiwa, pai de Thais, pratica a escalada até hoje. Todos os escaladores ficam olhando quando ele chega para treinar na Fábrica Escalada, ginásio especializado na modalidade que já está inaugurando uma segunda unidade em função da alta procura de novos esportivas. O espaço, conduzido pelos empresários, Pedro Rodrigues e Claudio Freire Junior, é patrocinador da atleta Thais Makino.

Alguns escaladores tentam fazer o que seu Goro faz, mas não conseguem se pendurar nas agarras espalhadas pelas paredes de 4,5 m. “Ver a escalada se tornar um esporte olímpico é um sonho distante que está acontecendo. É tudo de bom”, diz o pai da atleta brasileira. 

Olimpíada terá três modalidades em uma 

O modelo de disputa da escalada para os Jogos de 2020 é um evento combinado das três modalidades oficiais: Boulder, Dificuldade e Velocidade. O Boulder é disputado sem corda, em paredes de 5 metros de altura, protegidas por colchões de segurança na base. Na prova, o competidor tem um determinado tempo para completar o máximo de percursos. Sua pontuação é calculada pela dificuldade da via e da quantidade de tentativas para completá-la. Exige técnica e força para se prender às agarras fixas no paredão. Ganha quem completar mais escaladas, que têm níveis diferentes de exigência.

A Dificuldade (Lead), escalada com cordas, é feita em paredes de 15 a 20 metros de altura. O percurso fica gradualmente mais difícil e exige resistência do atleta. Nesta prova, como o nome já sugere, o principal critério é a dificuldade das vias - que têm também como característica serem longas.  Ganha quem chegar mais alto. Não basta alcançar o ponto mais alto, mas também ter o “controle” da agarra, que pode ser traduzido como se estabilizar na posição. O tempo, neste caso, só conta como último critério de desempate.

Velocidade (Speed), a modalidade mais simples para os iniciantes, reúne dois competidores, lado a lado, em vias idênticas. Ganha quem bater o botão primeiro lá em cima. As paredes têm, em média, 15 metros. Cada uma das vias precisam ter um número total de 20 agarras de mão e 11 agarras de pés.

“O modelo foi um meio termo seguro que o IFSC utilizou para garantir mais chances da escalada entrar nos Jogos Olímpicos. Deu certo”, afirma Neudson Aquino, assistente técnico da Associação Brasileiro de Escalada Esportiva. A escalada oferece seis medalhas: um pódio completo com ouro, prata e bronze para o masculino e outro para o feminino. Elas serão disputadas por 40 atletas no total, 20 homens e 20 mulheres. No total serão duas fases no modelo de disputa olímpico: qualificatórias e final.

Com chances reduzidas no Mundial que começa neste domingo, o Brasil deve apostar suas fichas no Pan da modalidade, em fevereiro, em Los Angeles. Os principais rivais são os norte- americanos. No último Pan, disputado no Equador, eles fizeram três dos seis finalistas. O brasileiro Cesar Grosso conseguiu o bom quinto lugar; Thais Marino terminou em nono.

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