Estrela solidária

Seedorf é desses jogadores que dá gosto de ver em ação. Pertence à casta especial de boleiros que driblam a erosão inevitável do tempo e prolongam a carreira com elegância e altivez. Por isso, brindam torcedores com jogadas em que técnica e lucidez se fundem. Está na categoria para os quais se torce, independentemente da cor da camisa que vestem.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2012 | 03h05

Qualidade o holandês de 36 anos tem de sobra. Consciente de sua importância e generoso com o público como só os verdadeiros artistas conseguem ser, transformou-se no protagonista do empate que o Botafogo arrancou do Corinthians, na tarde de ontem, no Engenhão. Seedorf abriu e fechou o marcador. Os dois lances seriam suficientes para garantir-lhe destaque, mesmo se fossem essas as duas únicas aparições.

Como também se diverte na reta final da carreira, entre um gol e outro reconfirmou a condição de estrela solidária do time que o acolheu. Como? Simples: presenteou os colegas com passes arredondados, cobrou faltas e escanteios com malícia e precisão combinadas, reteve a bola para ordenar o jogo, orientou os rapazes com gestos discretos e firmes.

Seedorf não reclama de maneira ostensiva, não catimba, não dá botinadas. Raros são os episódios em que recorreu a chute de bico. Sujeitos como Seedorf não costumam deixar arranhões na bola. Salvo engano, acho que nem tomou cartão amarelo nesta aventura brasileira. É um cavalheiro - e isso quem acompanha o futebol internacional sabe há mais de uma década. Não constam de sua biografia episódios nebulosos.

Pois o Milan, ao final da última temporada, chegou à conclusão de que Seedorf estava velhinho e que não valia a pena gastar com um candidato à aposentadoria. Adriano Galliani (braço direito de Silvio Berlusconi no futebol) optou por dar-lhe sinal verde para cantar em outra freguesia. Bem feito para os milaneses, que acumulam três derrotas em quatro rodadas do Italiano. Sorte do Botafogo, que o acolheu. E azar de quem torceu o nariz, ao apostar que viria para o Rio só para curtir praia, sol, caipirinha, metido num short e num chinelinho.

Seedorf é uma das boas referências do Brasileiro de 2012. E, antes que algum iluminado diga que sobressai aqui porque o nível é ruim, antecipo-me e digo que se trata de manifesta dor de cotovelo. Ele merece o carimbo de maestro, assim como outros dois vovôs nacionais: Marcos Assunção e Zé Roberto. O primeiro salvou o Palmeiras pela enésima vez, com apresentação impecável na noite de sábado em Florianópolis. O outro é um dos responsáveis pela bela campanha do Grêmio. Juninho Pernambucano vale situação, mesmo com o Vasco em declínio.

Seedorf é tão eficiente que faz o fã do Botafogo sonhar com vaga para a Libertadores. Objetivo matematicamente possível; na prática, porém, esbarra na oscilação da equipe, que integra o bloco daquelas que não sabem o que querem no campeonato, como Cruzeiro e Inter. Pelo menos os recitais de Seedorf compensam.

O São Paulo avança. Raras são as partidas em que a turma de Ney Franco empolga. E não são incomuns os tropeços. Ainda assim, o São Paulo se mantém na briga por vaga para a Libertadores. Como o Botafogo, a conta para tal objetivo não é muito complicada, com a vantagem de que mostra mais consistência. Que pode aumentar com a estreia de Ganso. E que passa também por Luís Fabiano, seus gols e recorrentes dores musculares. A vitória sobre o Cruzeiro reuniu as virtudes e os defeitos tricolores.

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