Estudo científico indica que onda surfada por Burle tinha entre 32m e 35m

Professor usa programa de computador para sinalizar com novo recorde mundial para brasileiro

Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

01 Novembro 2013 | 07h27

SÃO PAULO - A onda gigante que o surfista brasileiro Carlos Burle pegou nessa semana na Praia do Norte, em Nazaré (Portugal), ainda está dando o que falar. Miguel Moreira, professor da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa fez um estudo científico para tentar desvendar o tamanho do mar naquele momento e chegou à conclusão de que a onda surfada pelo pernambucano media entre 32 metros e 35 metros. "Para calcular a altura da onda, utilizamos a média da distância entre a crista e a base, medida em diferentes momentos da viagem na onda, com o mínimo de dez recortes em diferentes fotogramas do vídeo utilizado, desde o drop até à finalização", conta o especialista.

Segundo Miguel Moreira, foi utilizado na medição um programa chamado SIMI Motion Twin, que é um software onde é possível sincronizar imagens de diferentes execuções, sobrepor essas mesmas imagens, bem como medir ângulos e distâncias, o que permite encontrar explicações e soluções para os problemas sentidos na prática pelos esportistas e pelos seus treinadores. "A vantagem deste software é que já foi validado e confirmada a qualidade dos resultados com ele obtidos, através de muitos estudos científicos efetuados internacionalmente, ao nível do esporte, mas também na fisioterapia e na ortopedia, sendo por isso facilmente reconhecido pela comunidade científica", diz.

Para chegar aos valores do tamanho da onda surfada por Carlos Burle, o professor levou em consideração o tamanho da prancha, de 1,88 m, para servir de parâmetro para as outras medidas. "É utilizada a medida da prancha como escala, que ajuda a calibrar o recolhimento de dados, a partir da qual todas as outras são diretamente obtidas, após a marcação de dois pontos", explica. Ele lembra que no cálculo a grande dificuldade está em encontrar o ponto que define a base da onda, sendo para tal necessário recolher alguns pontos de referência no local para que seja possível caracterizar melhor a onda.

Por causa dessa situação específica, Miguel Moreira não consegue afirmar com precisão o tamanho da onda surfada por Carlos Burle, mas tem certeza de que ela superou os 100 pés, uma marca que é considerada mítica no mundo do surfe. "A título de exemplo conseguimos uma medição da onda surfada por Carlos Burle, que pode variar entre 32 m e 35 m, em função da base da onda, que não é muito explícita tendo em consideração a inclinação da onda e o percurso de rebentação."

Apesar da seriedade do estudo, a decisão final acaba sendo feita no concurso Billabong XXL, que premia as maiores ondas surfadas em cada temporada. O recorde mundial é do norte-americano Garrett McNamara, que atingiu a marca de 23,77 metros (78 pés). Se for confirmada, a onda de Burle será o novo recorde mundial. Mas o professor questiona alguns critérios da premiação. "Se querem registrar recordes devem ter regras muitos claras para o concurso e para quem pode participar. Deve ser do conhecimento geral a fórmula para calcular a altura da onda e deve estar prevista a regra para identificar uma onda válida, como se a onda deve arrebentar ou se o surfista não pode cair. Também não se podem esquecer as características da viagem na onda, como a velocidade atingida, a distância percorrida e a trajetória na onda. Por último, não podem ser feitas avaliações a partir de fotos, quando mesmo através do vídeo é muito difícil identificar todos os fatores referidos anteriormente."

Na quinta-feira, Carlos Burle desembarcou no Brasil e trouxe na bagagem muita história para contar. Ele espera que os números colocados pelo professor sejam confirmados pelo concurso no próximo ano, mas de qualquer maneira não se incomoda se o recorde mundial for confirmado. Para ele, a montanha de água que cresceu atrás dele quando dropou a onda já serviu para mostrar que era algo grandioso. "É subjetivo julgar ondas e não quero colocar tamanho. Mas pela reação dos surfistas que estavam ali, até de pessoas experientes como o McNamara, sei que era uma onda muito grande. Tanto que até a capitania dos portos tinha pedido para todo mundo sair do mar. Foi uma sessão histórica e é minha realização profissional", conclui Burle.

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