Ética abalada

Ética, moral, respeito, honestidade e disciplina são características fundamentais na vida do ser humano. Apesar de tanta patifaria que se vê por aí, ainda acredito nisso. Mas começo a achar que esses elementos se tornam cada vez menos importantes para muita gente... Um jogo da última rodada da desmotivante primeira fase do Paulistão reforçou minha convicção: Portuguesa x São Bernardo.

Eduardo Maluf, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2011 | 00h00

A partida, com apenas 3 mil espectadores na arquibancada, ocorreu há cinco dias. Eu, aqui, poderia abordar temas mais interessantes como a vitória do Santos e a classificação épica do Fluminense na Libertadores ou fazer apostas para as quartas de final do Estadual, que começam amanhã. Não me sinto animado, no entanto, a ignorar alguns episódios do Canindé.

Para quem não acompanhou o caso, segue um resumo. A Lusa buscava a classificação e o São Bernardo lutava contra o rebaixamento. Eram cerca de 40 minutos do segundo tempo. O placar de 0 a 0, até então ruim para o time da casa, passou a interessar, porque seu concorrente direto, o São Caetano, perdia para o Linense por 2 a 0. A igualdade, ao mesmo tempo, livrava o São Bernardo da queda para a Série A2.

Naquele momento, houve um "zum, zum, zum" em campo. Atletas do clube do ABC cochichavam com seus adversários. O que seria? A sugestão: levar aqueles minutos finais em "banho-maria". Para que continuar jogando "pra valer", se o resultado agradava a ambos?

Talvez tenha havido ruído na comunicação ou um equívoco... Aos 44, Ananias fez o gol da Portuguesa, que rebaixou o São Bernardo. Inconformado, Wilson Junior, goleiro reserva da equipe visitante, queria briga com colegas da Lusa. O titular, Marcelo Pitol, criticou a arbitragem, mas não se constrangeu em admitir que a Portuguesa também havia sido culpada pelo rebaixamento de seu time.

Henrique, da equipe da casa, revelou o que houve à TV Globo. "Os jogadores do São Bernardo que estavam no banco vieram até nós e começaram a falar que o 0 a 0 estava bom para os dois, tudo foi acertado ali e passamos a tocar a bola", contou. "Infelizmente para eles, a bola sobrou na área e o Ananias falou que tentou errar o chute, mas acertou."

Não sabemos se Ananias realmente errou o chute ou se a Portuguesa quis participar desse "acordo de cavalheiros". Também não me julgo no direito de dizer que os esforçados e humildes atletas do São Bernardo têm sua moral posta em discussão por causa da proposta não tão decente. E o que ocorreu no Canindé no último domingo não foi a primeira nem a última vez...

O fato é que cada vez se torna mais comum o uso da malandragem, da esperteza, da picaretagem para levar vantagem. E os personagens envolvidos nem têm vergonha em abordar o tema. Tratam como se fosse algo corriqueiro. De fato, essa história para um caderno de política não mereceria nem registro. Não representa nada perto das propinas, dos mensalões, dos desvios de dinheiro... Mas não consegui me conformar ao ver tudo transmitido pelo pay per view.

O Santos escapou por pouco de ter sido vítima de uma dessas combinações de resultado entre dois times na Libertadores. Se não tivesse vencido o Cerro Porteño, no Paraguai, há uma semana, certamente estaria eliminado. Uma igualdade naquela partida daria a Cerro e Colo Colo a possibilidade de empatar, anteontem, no Chile, para que ambos avançassem na competição, independentemente do placar entre Peixe e Deportivo Táchira. O próprio técnico do Cerro, Leonardo Astrada, falava isso abertamente antes de enfrentar o Santos. "O empate é bom, porque nos dará o direito de empatar na última rodada." Por que a igualdade era satisfatória, se a vitória lhe garantiria a classificação sem depender do último jogo? Claro, porque um 0 a 0, 1 a 1, 2 a 2 contra o Colo Colo resolveria para os dois. E, não tenham dúvida, o jogo teria terminado empatado em Santiago.

Seria justo eliminar o Santos dessa forma? Você pagaria ingresso para ver seu time jogar se, antes do confronto, já soubesse do resultado, por mais interessante que fosse para o clube?

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