Marcio Rodrigues / Mpix / CPB
Marcio Rodrigues / Mpix / CPB

'Escolhi ser feliz', diz Daniel Dias sobre o segredo do seu sucesso

Astro paralímpico usou preconceito do qual foi vítima no passado como motivação para se consagrar na natação  

Rafael Franco, enviado especial à Cidade do México, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2017 | 07h00

Daniel Dias seguiu sua trajetória de glórias como astro da natação ao conquistar seis ouros em sete provas disputadas no Mundial Paralímpico da modalidade, encerrado na última quinta-feira, no México, onde atingiu a incrível marca de 30 medalhas douradas ao longo de suas cinco participações na competição, na qual ainda acumula seis pratas. Para completar, ele contabiliza 24 pódios em Jogos Paralímpicos em uma carreira brilhante de quem, desde o seu nascimento, precisou superar obstáculos difíceis que a vida lhe impôs.

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O paulista de Campinas nasceu com má formação congênita dos membros superiores e da perna direita, na qual usa uma prótese para poder caminhar sozinho quando está fora das piscinas. Porém, se engana quem pensa que o nadador paralímpico é dependente de outras pessoas para desempenhar as tarefas comuns do dia a dia, como por exemplo usar as mãos para manusear um celular ou escovar os dentes. Mesmo possuindo apenas partes de membros do corpo, ele é capaz de fazer coisas que a maioria das pessoas que não o conhecem a sua rotina nem sonham que ele poderia realizar.

Em entrevista exclusiva ao Estado, concedida no complexo que recebeu o Mundial Paralímpico de Natação, Daniel Dias abriu o seu coração ao falar abertamente sobre como "escolheu ser feliz", como ele próprio definiu, para depois se tornar um dos maiores exemplo de superação do esporte mundial. E consequentemente um grande espelho para as pessoas portadoras de deficiência e para-atletas que lutam para enfrentar as suas dificuldades.

Mesmo sem ter partes dos dois braços, Daniel tocava bateria até poucos anos atrás, mas disse que precisou abandonar a prática do instrumento após ter se mudado para um apartamento com a sua esposa, Raquel, e também por causa do nascimento dos seus filhos: Danielzinho, hoje com três anos, e Asaph, de dois, para os quais ele cumpriu com folga o pedido que os meninos fizeram para que o nadador trouxesse na bagagem quatro medalhas de ouro no Mundial.

"Faz anos que eu não toco bateria, mas eu me divertia bastante na bateria. E hoje não dá para ter uma bateria em casa. Você imagina com duas crianças pequenas em casa o quanto de barulho que eu iria fazer? (risos). Nem bateria eletrônica eu acho que não iria durar muito tempo lá. Música é uma coisa que eu sempre gostei. Quis aprender um instrumento e a bateria é uma coisa que me faz bem, é algo que eu gostava bastante. Quando casei, mudei para um apartamento, e aí que não dava mais para ter mesmo uma bateria", revelou o astro paralímpico. 

Daniel, por sua vez, lembra que hoje algumas pessoas, até mesmo paratletas, se assustam quando ele diz que consegue dirigir normalmente um carro, o que é fruto das novas adaptações pelas quais os veículos de hoje podem possuir para dar acessibilidade aos portadores de deficiência.

"Eu dirijo também. Às vezes as pessoas acham que, por causa das minhas limitações, sou muito dependente de outras pessoas. E dirigir foi mais uma conquista também. Conquista de muitos aqui do nosso movimento paralímpico, que até me perguntam se eu consigo dirigir. Hoje tem várias adaptações que fazem a gente ter essa na liberdade e não ficar na dependência de outras coisas para ir treinar e fazer as nossas coisas sozinhos", destacou.

PRÓXIMOS PASSOS

Com 29 anos de idade, Daniel sabe que em um futuro próximo terá de se dedicar a uma nova atividade fora das piscinas. Tendo em vista essa possibilidade, o nadador voltou a estudar após ingressar recentemente em uma faculdade. "Comecei a fazer Tecnologia em Marketing. Estou  gostando bastante do curso, estou feliz, é uma nova etapa na minha vida, mais um grande desafio, afinal a gente também tem de pensar fora daqui, o que vai ser quando o Daniel parar. Aí eu decidi começar a estudar e estou feliz também com esse novo rumo que a minha vida está tomando fora da piscina", revelou.

E Daniel Dias lembrou que, em um primeiro momento, a pessoa com deficiência precisa aceitar a sua própria condição e não usá-la como justificativa para deixar de acreditar que pode ser feliz ou bem-sucedida em qualquer setor da sociedade, na qual a prática da natação e o sucesso alcançado na modalidade serviram como instrumentos fundamentais para a sua inclusão social.

"A natação me ajudou muito, mas eu acredito muito na ferramenta que é o esporte. Claro que aqui hoje a gente está em um Mundial e em um esporte de alto rendimento, mas isso daqui não vai deixar de ser a grande ferramenta para inclusão social. E o esporte primeiro me ajudou a me aceitar como eu sou porque não adianta nada a gente cobrar isso (inclusão) se a gente não se aceita como é e não vai em busca de nossos sonhos e objetivos", enfatizou Daniel, poucas horas antes de disputar a sua última prova neste Mundial Paralímpico.

"O esporte me mostrou que eu sou capaz, e é isso que eu tento passar para as pessoas e que eu vejo na inclusão social. Não é pelo fato de que eu não tenho os braços e a perna que não vou realizar os meus objetivos, ser bem aceito em algum ambiente e não vou poder ser um grande advogado, um grande médico. As pessoas sonham alto e sonham com coisas diferentes, e o esporte pode ser uma grande ferramenta para ajudar a mostrar para ela que ela é capaz de realizar os seus sonhos", enfatizou.

PRECONCEITO E BULLYING

Se hoje Daniel Dias é um exemplo de pessoa de sucesso, ele admitiu que há muitos anos sofreu com o preconceito por causa de sua deficiência física e até mesmo foi vítima de bullying quando estava na escola. Entretanto, o para-atleta pontuou ao Estado que essas duras experiências serviram como motivação para que buscasse o sucesso e a felicidade de maneira obstinada.

"Infelizmente teve o fato (bullying), mas, se você for perguntar, acho que 100% das pessoas podem ter enfrentado esse tipo de problema alguma vez. E isso me fez crescer, acho que foi algo difícil no momento, com certeza, na escola, mas eu fiz uma escolha na minha vida: eu escolhi ser feliz. Escolhi mostrar para mim primeiro que venceria estes obstáculos, que venceria as dificuldades", disse Daniel, para depois apontar que é importante se tornar uma referência para as outras pessoas. 

"A melhor maneira para vencer para mim é o exemplo. Quando hoje eu olho para os meus filhos e eles olham uma cadeira de rodas, por exemplo, eles não enxergam problema nisso. Eles me veem sem a mão e para eles isso é normal. Então é isso que é muito legal. Tudo que eu passei na minha vida me fez crescer muito e me fez fazer a escolha de ser feliz", ressaltou.

FÉ EM CRISTO

Se Daniel Dias hoje possui o status de quem é um dos maiores astros paralímpicos da história do esporte, ele não tem dúvidas de que isso só se tornou possível por causa de sua fé em Cristo. O nadador não se considera um fiel fervoroso, mas afirma que Deus lhe deu um dom que ele soube aproveitar para superar em grande estilo os obstáculos da vida.

"Eu não sou um cara religioso. Eu sou um cara temente a Deus, acredito demais que ele pode fazer grandes maravilhas na nossa vida, mas hoje a gente não pode se prender à religiosidade. Temos de nos prender a Cristo. É como a palavra dele diz: 'Que ele é o único caminho, a verdade e a vida', Então isso sempre me motivou, isso continua me motivando a estar aqui glorificando o nome dele e estar, a cada braçada, agradecendo e sendo grato por este dom, pois vejo que é um dom que ele me deu e estou apenas lapidando isso", enalteceu o astro.

Evangélico, Daniel disse acreditar que um dia poderá ter as suas marcas superadas e deixar de possuir o protagonismo que possui hoje, mas tudo isso para ele fica em segundo plano por causa da fé inabalável que ele tem em Cristo e foi profetizada desde criança pelos seus pais, com quem sempre frequentou a Igreja Presbiteriana.

"No final das contas, medalhas, troféus, recordes... vai vir alguém, cara, que vai ganhar isso tudo e vai quebrar os recordes. Assim como eu superei o Clodoaldo (Silva, ex-nadador da natação paralímpica), que foi um cara me inspirou. Não tenho dúvidas de que isso pode acontecer daqui um tempo. E espero que isso demore (risos), mas pode vir alguém que venha me superar em número de medalhas e tudo mais. Mas o que vale mesmo é o amor de Cristo por todos nós", completou.

HOMEM DE FERRO

Exemplo de sucesso, Daniel Dias também é visto como um ídolo pelo seus filhos. Muito mais do que isso, como um super-herói, apesar de não possuir a condição física que o credenciasse a ser confundido com um personagem que as crianças idolatram em um desenho animado ou em um filme.

"Teve um fato que foi muito engraçado. O Asaph estava aprendendo na escola sobre pernas, braços, sobre a questão do corpo. E eu costumo dormir sem a prótese. Aí um dia fui escovar o dente e fui pulando com a outra perna. Aí foi a primeira vez que ele falou: 'O papai não tem a perna". E aí eu falei: 'É, filho, Deus fez o papai assim e por isso que eu uso a prótese pra poder caminhar'. E aí ele falou: 'Por isso que o papai é o Homem de Ferro'. Eu achei isso demais. É claro que ele ainda não tem essa noção ainda sobre as coisas, mas ele me vê como um super-herói, como um paizão", diz, orgulhoso. E, de fato, Daniel Dias provou de novo, agora no México, que é um super-herói da natação.

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