''Eu já mostrei o caminho''

Guga sai das quadras preocupado com o futuro do esporte no País e disposto a trabalhar na formação de novos talentos

Entrevista com

Chiquinho Leite Moreira, O Estadao de S.Paulo

31 de maio de 2008 | 00h00

As quadras acabam de perder o brilho do maior jogador da história do tênis brasileiro. Gustavo Kuerten foi vencido por uma lesão no quadril e precisou parar. Não deixará, porém, de ser ídolo. Afinal, três títulos de Roland Garros e 43 semanas como o número 1 do mundo são marcas difíceis de serem alcançadas. Com a retirada de Guga, o País fica órfão de um tenista capaz de chegar às finais de competições excitantes e tradicionais como os Grand Slam. O público brasileiro já se acostumou, aprendeu e adora acompanhar Roland Garros. Basta analisar o número de brasileiros que estão este ano em Paris, andando por suas alamedas, acompanhando o melhor do tênis. Mas não há para quem torcer agora.O próprio Guga, em uma conversa em Paris, revelou sua preocupação, deu verdadeira bronca nos que não querem se dedicar com a intensidade necessária e promete ?estar ao redor? para que a magia não se vá. Gostaria de ver seu exemplo sendo seguido. "Eu já mostrei o caminho", disse. Como vê o tênis brasileiro, agora sem o Guga? Não receia uma diminuição do interesse?Tenho de estar ao redor, seguir de alguma forma envolvido no esporte. Não quero me transformar em treinador, mas acho que já mostrei o caminho. Os técnicos têm de viajar mais com seus jogadores. Passar um mês e meio na Europa, jogar torneios grandes. Só assim podemos ter jogadores, de repente, jogando numa segunda semana de um Grand Slam, talvez alcançando uma posição entre os 50 ou 30 primeiros, o que já se deve considerar muito bom.Não acha que depois do que você alcançou, como tricampeonato de Roland Garros, ter jogadores apenas entre os 30 não seria muito pouco para um público que se acostumou a vê-lo erguendo troféus importantes? Não seria assim alguma coisa parecida, guardando as proporções, como aconteceu depois da morte do Senna? Ou seja, o público ficou mal acostumado.Tive um período que posso dizer que foi surreal, em que ganhei quase tudo. Mas, depois chegamos a ficar algum tempo sem nenhum jogador sequer entre os cem primeiros do ranking. Agora, a situação está novamente um pouco melhor. O Thomaz Bellucci tem um grande potencial, o Marcos Daniel vem jogando bem e, por pouco, não passou para a terceira rodada, o que há anos não acontece com o tênis brasileiro. Houve um período em que tínhamos sempre muitos jogadores no Grand Slam, com o Nico (Luiz) Mattar, o Jaime Oncins, o Fernando Meligeni e podemos voltar a esse nível. Por isso, quero estar envolvido, passar minha experiência e trabalhar num projeto de formação de novos jogadores, para que muitos talentos não sejam perdidos. Na Fórmula 1 acontece isso. Já estão surgindo novos ídolos como o Felipe Massa.Não acha que seu período nas quadras deixou de ser mais bem aproveitado, especialmente no investimento para que aparecessem novos jogadores?O tênis brasileiro perdeu 10 anos com uma má gestão na Confederação. Mas não quero ficar olhando para trás. Hoje já está se fazendo muita coisa para melhorar, a CBT vem se mexendo. Mas o Brasil não tem um Grand Slam que proporcione uma situação financeira muito boa para investimentos. O tênis também não é o esporte número 1 do País. Já iniciei com o Larri (Passos, seu treinador e grande amigo) um projeto em sua academia para formação de jogadores e podemos ter algumas surpresas dentro de cinco ou seis anos. Faltou um trabalho mais capacitado. Mas agora existem novos projetos de desenvolvimento que podem dar bons resultados.

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