Europeização

Estive em Hong Kong em 2005 para fazer a cobertura do amistoso entre Brasil e seleção local. Fiquei impressionado com o número de pessoas andando nas ruas à noite, os arranha-céus e o comércio popular, principalmente de artigos eletrônicos. Surpreendi-me também com a paixão do povo pelo esporte. Ao ligar a TV, vi uma overdose de futebol europeu, sobretudo da Inglaterra, país que colonizou a nação asiática.

Eduardo Maluf, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2013 | 02h03

Nem os mais fanáticos torcedores dão bola para a liga nacional, que conta com alguns jogadores brasileiros - como em quase todos os lugares do globo. Trocam as partidas de lá para ficar na frente da TV e assistir a Manchester, Bayern, Barcelona, Real, Milan...Não vejo nada de estranho nisso. Hong Kong, afinal, nunca teve futebol forte, e acaba sendo natural o interesse de sua população por campeonatos de centros mais desenvolvidos. O preocupante é o fenômeno ganhar cada vez mais força no Brasil, país cinco vezes campeão mundial, formador de craques e dono de uma competição nacional equilibrada.

Nas últimas semanas, tenho observado muita gente falar sobre os recordes de Messi, o Real Madrid x Manchester de anteontem, o bom começo de Lucas no PSG e pouca coisa sobre o Paulistão ou os Estaduais em geral. A garotada, principalmente, dá grande atenção aos torneios de fora e parece menos encantada com o que ocorre por aqui. Por sorte, a Libertadores entrou em campo para dar um pouco de emoção neste insosso início de temporada.

A globalização e o surgimento das TVs por assinatura, que transmitem generosa porção de futebol internacional quase diariamente, têm papel fundamental na mudança de comportamento do público. Mas importante parcela de culpa é dos problemas que temos há anos e não resolvemos.

Os dirigentes de São Paulo dizem que o regulamento do Paulistão é mantido porque vem agradando aos patrocinadores e ao público. Não é possível que eles estejam conversando com os torcedores. O reflexo da fragilidade do campeonato está nas arquibancadas, na audiência da TV e na escalação de equipes como Corinthians e São Paulo.

Outra deficiência grave - e batida - é de calendário. O São Paulo, por exemplo, já tem duas partidas em atraso em relação aos concorrentes no Paulista. O Grêmio precisou, de novo, disputar dois jogos em dois dias nesta semana. E a seleção voltou a desfalcar os clubes.

O presidente da CBF declarou recentemente que "é preciso conviver com essa realidade" e que "o Brasil não pode se adaptar ao calendário de outros países, como os da Europa", por suas dimensões continentais.

O tema do calendário e dos Estaduais está cansativo, não é novo e tem sido discutido há anos. Mas, enquanto os dirigentes lavarem as mãos e não se mexerem na busca de soluções, vamos novamente retomar a pauta no início de 2014. E cada vez mais observaremos crianças jogando bola nas escolas com camisa do Bayern, Manchester, Barcelona...

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