Exílio

Antes nos exibíamos para o mundo. Onde o Brasil fosse jogar as arquibancadas eram contra nós. Iam torcer para seus países sempre receosos do pior ao enfrentar os artistas da bola. Isso valia para várias equipes sul-americanas. Não é mais assim. Estamos agora nos exibindo para nós mesmos, por assim dizer. Brasil e Colômbia jogaram, e não estavam nem no Brasil nem na Colômbia. Jogaram para arquibancadas cheias de brasileiros e colombianos, debaixo de um clima e de uma temperatura que não correspondem nem ao Brasil e nem à Colômbia. Brasil e Colômbia se exibiram para exilados dessas duas nações nos Estados Unidos da América, cuja população, como de hábito ignorou olimpicamente o jogo.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2012 | 02h03

Que significa um jogo desses? Num futebol inteiramente comercializado, onde as artimanhas financeiras são tudo, me escapa a razão de deslocar duas seleções para jogar no território de uma terceira. Não sei quem ganha o que com isso. Mas felizmente, agora, um jogo desses tem outros significados.

Quem era aquela gente que se amontoava na arquibancada de um estádio que nem era de futebol, numa New Jersey ainda ferida pela terrível tempestade de outro dia? Quantas daquelas pessoas, brasileiros e colombianos, ainda contavam os prejuízos sofridos?

No entanto, apesar do frio, das perdas, do medo, foram ao estádio reencontrar a pátria. Não é pela televisão que alguém se incorpora ao próprio país. Não é vendo jogos transmitidos de longe que se mata a saudade. É no estádio, diante da presença física dos jogadores que um expatriado se sente em presença real do próprio país.

Ver Neymar pela televisão é uma coisa, vê-lo no campo, em carne e osso, é outra muito diferente. O ídolo passa a ser quase um igual, seu talento pode ser visto integralmente, os olhos podem segui-lo em toda a parte, mesmo quando não está com a bola.

No estádio o torcedor é livre como no teatro, olha onde quer, quando quer, não aquilo determinado pelo câmera ou pelo diretor de TV. Muitas daquelas pessoas em New Jersey, no instante em que a camisa de sua seleção apontou no gramado deixaram de ser clandestinos para ser cidadãos. Deixaram de ser gente de qualquer lugar para ser realmente brasileiros e colombianos.

Veio da arquibancada o sinal de que aquele não era um amistoso sonolento, mas um jogo que se disputava inclusive fora do campo, na cabeça dos torcedores. Isso é bonito. Desde que nos tornamos um país de imigrantes, desde que cidadãos brasileiros saíram em massa do país, de maneira chocante para pessoas da minha geração, é preciso de vez em quando pensar neles.

O jogo de New Jersey foi uma boa ocasião. Eles estavam lá nos dizendo que são brasileiros. Trazendo suas bandeiras e mensagens do Corinthians, do Palmeiras, do Vasco, Fluminense, de todos os clubes que de longe ainda amam. Foi bonito. Como bonita, quase como em retribuição, foi a própria partida.

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