Experiência que pode mudar a cara de esportes menos badalados

Escolhida para administrar investimento de R$ 100 milhões da Petrobrás, distribuídos entre cinco modalidades, Paula tem a missão de ajudar na conquista de medalhas nos Jogos de 2016

Entrevista com

Amanda Romanelli e Antero Greco, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

Paula, a Magic Paula, atormentou rivais com pontaria certeira nas quase três décadas em que esbanjou arte nas quadras de basquete. A gestora esportiva Maria Paula Gonçalves da Silva pretende continuar com a mira afiada, agora na administração de recursos para a preparação de uma centena de atletas com potencial de bons resultados na Olimpíada de 2016. Na segunda-feira, tornou-se oficial a tarefa que lhe havia sido dada já no fim do ano passado: coordenar um projeto milionário de patrocínio da Petrobrás, via Lei de Incentivo ao Esporte.

A estatal escolheu cinco confederações - remo, tae kwon do, esgrima, levantamento de peso e boxe - para receber recursos que lhes permitam olhar com ousadia para a competição de que o Brasil será anfitrião. E entregou à Passe de Mágica, empresa de Paula, a missão de atuar como elo entre as pontas. A ex-jogadora fez um levantamento das carências e objetivos desse grupo de confederações nanicas, em geral esquecidas dos grandes investidores, e preparou um plano de ação.

"Pedi que fizessem projeções razoáveis, com resultados possíveis", conta Paula, que viu as reivindicações atendidas. Cuidadosa nas explicações, reconhece o peso da responsabilidade de gerir os cerca de R$ 100 milhões reservados até o fim de 2014, com provável renovação. Admite que se trata de experiência inovadora, mas não fala em revolução esportiva. "Não é um programa de fomento, de descoberta de talentos, mas de aposta em atletas que possam competir em alto nível."

A experiência no Ministério do Esporte e no Centro Olímpico da Prefeitura de São Paulo afinou-lhe o tato político. Com delicadeza, esquivou-se de enxergar, na forma como o processo de patrocínio foi conduzido, uma estocada no poder de Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro. A entidade costuma absorver a maior parte dos recursos financeiros para depois repassá-los para as confederações. "Não sei, pergunte pra ele", desconversa, polida, cortês.

A executiva de esportes deu espaço para a ex-atleta, na conversa de uma hora e meia com o Estado, quando voltou ao passado e lembrou dos tempos em que calçava tênis All Star mostarda e o basquete feminino levava grande público aos ginásios. "Minha mãe organizava caravanas de até 40 ônibus, que vinham de Piracicaba para o Ibirapuera." Paula jogava na Unimep e a sua modalidade caminhava rumo ao título mundial, que veio em 1994.

Por que você aceitou coordenar este projeto?

Vinha sentindo que estava na hora de alçar novos voos, por mais que eu estivesse fazendo um bom trabalho no Centro Olímpico. Já são quase dez anos na área da gestão esportiva, me preparando para algo mais substancioso. Quando veio o convite da Petrobrás, foi uma sinergia. O esporte brasileiro vive um momento especial para captação de recursos, mas a gente continua, ainda, convivendo com problemas antigos, como o dinheiro não chegar ao atleta. O projeto tem muito a ver com o que eu acredito, que é fazer com que o atleta tenha garantias de poder trabalhar bem, de maneira correta, e ter resultados.

Quando começou o trabalho?

Participo desde dezembro, quando foi criada uma comissão para construir o programa. Depois recebi o convite para assumir por meio da minha instituição, a Passe de Mágica. O que me preocupava era a relação com as confederações, mas começamos a trabalhar com elas em maio e a receptividade foi muito boa, de poder construir algo juntos e perguntar: Qual é o sonho de vocês?

Por que a escolha das modalidades?

Elas foram escolhidas pela Petrobrás porque não tinham patrocínio e porque há um número grande de medalhas (olímpicas) em jogo.

E o que foi feito até agora?

Nós passamos 50, 60 dias num diagnóstico sobre o mundo real e o sonho deles. Ainda não sabíamos quanto a Petrobrás iria investir, mas colocamos valores de viagens, plano de saúde, odontológico, apoio tecnológico, equipamentos, tudo. Foi um trabalho de dia a dia com cada confederação. Definimos que queríamos ajudar o atleta e em cima disso montamos o projeto. Quando apresentamos à Petrobrás, praticamente tudo foi aprovado.

O projeto visa a medalhas em 2016 ou pretende difundir modalidades?

Pedimos para que cada confederação colocasse seus objetivos, mas que fossem reais. Consequentemente, haverá melhora, mas não há cobrança por resultado imediato. Todos têm suas metas, entre Pan, Olimpíada e Mundiais. A cada ano, vamos reavaliando. Acredito que com o apoio e a estrutura é impossível não ter resultado. Outra preocupação é não apoiar só o atleta, mas também o técnico, que precisa estar motivado, ter um salário, ter o foco só neste trabalho.

São muitos os investimentos no esporte olímpico atualmente. Você acredita que haverá sequência após 2016 ou vai ser algo pontual?

Todos têm batido na tecla do legado e, quando falam nisso, pensam em ginásios. Mas existem vários tipos de legado, como a questão de políticas públicas voltadas para o esporte, do esporte dentro da escola. Isso é legado social. Acho que temos uma grande oportunidade para rever a política esportiva, não é só chegar lá (em 2016) e ganhar medalhas, mas discutir o que vai se deixar. Qual é a cultura, a mentalidade que vamos deixar para o brasileiro? Temos que focalizar este momento.

Você acha que isso será feito?

Penso que teríamos de ter um modelo de gestão para que isso aconteça, mesmo que venha de cima para baixo. Acho que nós temos de ter um modelo de gestão construído com o poder público e com as entidades que vão tomar conta do esporte, não adianta cada um seguir para um lado.

Você defende uma atuação maior do Ministério do Esporte?

Quando você está no poder público, tudo é muito lento. Não existe a agilidade da iniciativa privada. Acho que é também papel do Ministério, mas tem de ser construído em conjunto. Porque o Ministério pode achar que é de um jeito, o COB pode achar que é de outro, as confederações, de outr ainda. Tem que existir unidade e, muitas vezes, não se fala a mesma língua.

Parece que é isso que está acontecendo neste momento. O Ministério do Esporte defende uma coisa, o COB, outra...

Eu não gostaria de entrar muito nesta questão, porque é um tema bem complexo.

O COB chegou a conversar com vocês, sugerir algum esporte?

O contato com o COB foi todo via Petrobrás. Nós não podemos perder de vista que essas confederações são independentes, empresas privadas. Quando o Banco do Brasil decidiu patrocinar o vôlei, talvez o Ary Graça não precisou consultar o COB se poderia.

Exames de doping estão previstos no projeto? É algo que preocupa?

Quando decidimos que todo mundo passaria pelo doping (serão dois exames para cada atleta ao ano), já é uma forma de controle de termos um controle. Mas vamos investir na conscientização. Muitas vezes o doping acontece por falta de orientação. Estamos tentando nos proteger com os exames. Não podemos correr o risco de falarem "fulano do projeto está dopado."

Carlos Arthur Nuzman afirma que a construção de centros de treinamento e a contratação de técnicos estrangeiros são essenciais para a nossa evolução. Você concorda?

Acho que o esporte brasileiro precisa valorizar mais o profissional que está aqui, na iniciação, na formação. A gente fala em formar atleta, mas esquecemos desse importante profissional de educação física. Sobre o técnico estrangeiro, acho mais legal ir lá onde o treinador está, conviver no dia a dia dele. Não sei se o cara vem para cá e nos dá o caminho das pedras. Mas acho que o vaivém é importante. Eu sou a favor dos centros de treinamento, mas faço uma pergunta: teremos profissionais para captar talentos?

Qual é a distância entre a iniciação e o alto rendimento?

É grande. Num universo de quase mil atletas no Centro Olímpico, tínhamos 13 em seleções brasileiras de base. O esporte de alto rendimento é para poucos. Algo que a gente tem observado é a dificuldade de seduzir o jovem de hoje. Com esse mundo virtual, ninguém mais quer ficar cinco, seis horas batendo numa bola ou ir dormir cedo. Ele quer ir para a balada, jogar videogame, muitas vezes ele contra ele mesmo. As crianças que chegam hoje nas escolinhas não sabem correr. Eu morava no interior, corria, ia para o clube. Mas a cidade não te deixa mais andar, as escolas não têm quadra, não há espaço para a criança brincar. É preocupante, porque vem diminuindo o desejo pelo esporte.

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