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Ugo Giorgetti
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Experiências

O pesadelo de um colunista é o assunto. Ou a falta de assunto. Do que vou falar? Às vezes tudo parece tão igual, os jogos tão parecidos, as declarações, entrevistas, procedimentos e condutas de jogadores, treinadores e dirigentes tão semelhantes, que a impressão é que não existe mais nada de novo no mundo do futebol.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2013 | 02h10

Como? Já falei sobre isso. De novo? Mas já falei também sobre esse assunto. Então o que fazer? Rezar, se for um crente, torcer, se for um cético, para que alguma coisa minimamente interessante aconteça. Muitas vezes acontece na última hora, quando o desespero já é uma ameaça num horizonte próximo. Hoje fui salvo pelo Martorelli.

Alarmado, vasculhava a semana à procura de algo que não fosse Corinthians x São Paulo, ou o Atlético e sua derrota no Paraguai, quando me deparei com o Martorelli. Sim, Martorelli, um nome que para muitos é um tanto desconhecido, menos, talvez, para certos torcedores do Palmeiras, equipe da qual foi goleiro, e que guardam dele uma lembrança inesquecível, embora pelos motivos errados.

Fora essa informação, sabe-se que Martorelli é presidente do Sindicato dos Atletas do Estado de São Paulo há longos anos. Raramente ouve-se falar dele, mas hoje ele produziu uma novidade. Não é que nosso estimado Martorelli anda preocupado com a saúde do jogador de futebol? Esse cuidado louvável só tem, a meu ver, uma singularidade que me deixa perplexo: Martorelli está preocupado não com saúde dos boleiros patrícios, mas com a saúde dos estrangeiros. E também, não com qualquer estrangeiro. Não se trata de estrangeiros humildes, que lá também pode haver alguns, mas com os mais ricos, os que vão jogar a Copa no Brasil. São esses que precisam de cuidados. E o problema parece ser a nossa temperatura de país tropical. É preciso não submeter os europeus às nossas terríveis condições climáticas. É nessa campanha que está empenhado o Sindicato dos Atletas do Estado de SãoPaulo, tentando demover a Fifa de realizar jogos em determinados horários.

Curiosamente. o Sindicato não se manifestou, pelo menos que eu tenha sabido, quando nossos jogadores foram submetidos a temperaturas senegalescas ou siberianas, em Copas recentes. Agora, porém, está até mesmo se valendo da ciência e da técnica de ponta para verificar o tamanho do perigo. A ciência, convocada, se debruça sobre o grave problema e como é de seu método, faz testes. Os testes são aplicados em brasileiros, evidentemente. Jogadores amadores, jogadores à procura de emprego, equipes do exército, enfim, gente que dificilmente se poderia classificar como voluntários, e que dificilmente poderiam se negar a participar da experiência, estão jogando em dificílimas condições climáticas, depois de engolir chips que irão registrando e analisando suas reações, adversas ou não, durante o jogo. Para terem validade penso que esses testes devem ser levados em condições extremas, por isso suponho que se algum jogador cair duro os cientistas estarão ali ao lado para socorrê-lo. Atividades como essa não são conhecidas, até por nós, leigos, como experiências feitas com cobaias? Será um exagero pensar que jogadores brasileiros estão servindo de cobaia para algo que jamais irá beneficiá-los, já que geralmente jogam em campos horrorosos, em horários impróprios, sem assistência médica e com salários atrasados, mesmo aqui em São Paulo? Não seriam esses os problemas sobre os quais deveria se pronunciar o Sindicato?

Mas, aparentemente, o Sindicato prefere proteger jogadores que reclamaram muito de nosso clima como, por exemplo, De Rossi, da seleção italiana e jogador da Roma, cidade de clima tão ameno, principalmente no mês de agosto. Acho que o Sindicato dos Atletas do Estado de São Paulo, entidade que às vezes parece extinta, perdeu uma excelente oportunidade de reaparecer no noticiário dos jornais.

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