Fábio Gouveia e o prazer de surfar ao lado da família

''Fia'' sempre viajou com a mulher e os filhos e realizou o sonho de competir com um deles em Fernando de Noronha

Giuliander Carpes, O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2011 | 00h00

O surfe sempre foi um negócio de família para Fábio Gouveia. Foi viajando com a mulher, Elka, e os três filhos, algo totalmente incomum no circuito nos anos 90, que ele conquistou seus maiores títulos e se tornou um dos principais - senão o melhor - surfistas brasileiros de todos os tempos. Em Fernando de Noronha, Fia, como é chamado, pôde repetir outro sonho: competir no mesmo evento que o filho Ian, 18 anos, uma das grandes esperanças do esporte nacional.

Fábio, que já está afastado do circuito mundial, não tinha sequer ranking para disputar o Hang Loose Pro. Aos 41 anos, competiu nas triagens, passou e pôde disputar a primeira fase do evento com Ian. Os dois foram eliminados, mas isso, neste momento, pouco importa. O que mais deixa o veterano realizado é conseguir viajar junto com um filho pelos mares do mundo e passar um pouco de sua experiência - foi campeão mundial amador em 1988 e primeiro do País a ganhar uma etapa da elite do esporte no Havaí, entre outras conquistas pioneiras.

"É sempre bom ter o pai por perto, ainda mais um surfista experiente. Melhor técnico que ele não tem", diz Ian, que, no ano retrasado, igualou a maior conquista do pai em Fernando de Noronha: chegou às quartas de final no seu primeiro evento na ilha. "Tem vezes que ele não gosta não, tem vontade de me afogar", entrega Fia aos risos. "Felizmente, meu pai não enche muito o saco. Agora minha mãe... Se ela estivesse na posição do meu pai eu não ia querer que ela viesse nos campeonatos."

Que injustiça. Elka tem papel fundamental na carreira de Ian e de Fábio. "Quando fica doentinho é para a mamãezinha que ele corre", brinca o pai. O veterano brasileiro foi um dos primeiros surfistas a viajar pelo circuito mundial com toda a família, algo incomum num esporte onde o estilo de vida corrente na época envolvia certas doses de liberalismo sexual e desapego.

"Era uma loucura, mas era gratificante e a única forma de acompanhar o crescimento deles e de eles verem o pai trabalhando. Todo sacrifício era recompensado por estar perto da família", lembra Fábio. "Ficar longe deles era o meu maior problema no circuito mundial. Teve um ano que estava no maior gás, fui com eles para a Austrália. Nos dois primeiros eventos, mandei superbem. Quando eles foram embora, bateu o banzo, já não me encontrei nas ondas. Tem gente que se atrapalha com família, perde o foco, mas para mim era uma forma de dar tranquilidade"

O patriarca dos Gouveia jamais fez pressão para os filhos se tornarem surfistas. Mas o estilo de vida da família que criou com Elka teve papel importante na revelação de Ian e na formação do mais velho Igor e da caçula Ilana. "A mãe deles também pegava ondas e todos cresceram na praia. Um ou outro acabaria querendo seguir carreira", explica Fábio.

Os outros dois filhos têm seus próprios objetivos e surfam nas horas vagas. "O Igor está se formando engenheiro ambiental e a menina está numa fase de patricinha. Só quer saber de alisar o cabelo e pintar as unhas, o que vai um pouco contra o surfe", diz Fia. Apesar de hoje ele pouco competir - dedica-se a desenhar pranchas e participa esporadicamente de alguns torneios -, ainda perde eventos de família. "A formatura do Igor é no sábado, em Florianópolis, e eu e o Ian devíamos estar lá. Mas não fizemos todo nosso trabalho aqui e temos de aproveitar as ondas para fazer fotos, divulgação dos patrocinadores. Ossos do ofício."

PERFIL

FÁBIO GOUVEIA

NASCIMENTO: 26/08/69

LOCAL: BANANEIRAS, PB

Começou a surfar aos 13 anos. Foi campeão mundial amador, em 1988, em Porto Rico, e o primeiro brasileiro a vencer em Sunset, no Havaí, em 1991.

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