Faça a coisa certa

Ronaldinho Gaúcho, o mais habilidoso e espetacular jogador de futebol surgido no planeta depois da aposentadoria de Maradona, foi apresentado como jogador do Milan na última quinta-feira. A recebê-lo, no legendário estádio San Siro, nada menos do que 40 mil fanáticos torcedores milaneses. Se considerarmos que o craque brasileiro, além de vários quilos acima do peso, pouco ou nada havia produzido na última temporada, a multidão poucas vezes reunida para a apresentação de um jogador de futebol pode ter causado surpresa. Mas convém não esquecer da primeira frase desta coluna: tratava-se do mais habilidoso e espetacular jogador de futebol surgido depois de Maradona.A carreira de Ronaldinho Gaúcho esteve bem próxima de um amargo final. Além da desoladora participação no último Mundial e do afastamento do grupo de titulares do Barcelona, o craque quase cometeu o maior desatino de sua trajetória. Mal assessorado, quase foi jogar no modesto Manchester City, espécie de primo pobre do Manchester United. Essa decisão, lamentável do ponto de vista técnico, ainda que financeiramente rentável, seria como largar o poderoso Barcelona para ir jogar em seu primo pobre da Catalunha, o Espanyol.O que os 40 mil tifosi do Milan sabem foi o que todo mundo já parece saber: nenhum jogador, de Maradona para cá, foi capaz de mostrar maior intimidade com a bola do que o nosso simpático dentuço. Como o escritor e crítico José Miguel Wisnik disse na Flip (Festa Literária de Parati), durante um debate com o igualmente brilhante Roberto DaMatta, Ronaldinho Gaúcho é um jogador pós-moderno. Pós-moderno porque consegue ser um compêndio vivo de todos os jogadores que o precederam, capaz de fazer, em suas jogadas, citações de vários craques históricos.Ronaldinho pode cobrar uma falta colocada, com a precisão de Zico e Platini, mas também fazer a bola descrever a trajetória de uma folha seca de Didi. Ou ainda fuzilar o goleiro com uma patada de Éder ou Canhoteiro. Ele pode driblar com a arrancada de Garrincha, com uma pedalada de Robinho ou aplicar um elástico do Rivellino. Também pode girar o corpo ao redor da bola como Zidane, avançar driblando em velocidade à la Maradona ou cabecear com os olhos abertos, no melhor estilo Pelé. Ronaldinho é capaz até de fazer lançamentos para um lado enquanto olha na direção oposta, algo que Magic Johnson, astro do basquete, fazia também. Ainda que tenha sido menos aclamado do que muitos dos que estão em sua lista de citações estilísticas, não há como negar que Ronaldinho é o único ser vivo capaz de realizar todas e cada uma dessas jogadas.Essa capacidade de ser um completo manual de estilo futebolístico é o que faz de Ronaldinho astro incomparável. É essa verve que esperam ver os 5.230 torcedores que, uma hora após o anúncio de sua contratação, já haviam comprado carnês com ingressos para todos os jogos da temporada. Ninguém imagina ir ao estádio para ver Ronaldinho jogar sem espetáculo. Mas, por outro lado, ninguém quer ver um show de Ronaldinho acompanhado da vitória do adversário. É justamente isso que o craque precisa aprender.O Milan é um time competitivo, como é regra no futebol italiano. Além de treinar ao lado daqueles que poderão ser seus companheiros de frente na próxima copa - Kaká e Pato - ,Ronaldinho terá a chance de aprender a importante lição de que, para ele, da mesma maneira que não há vitória sem espetáculo, não há espetáculo sem vitória. Depois de uma péssima fase, foi bom constatar que o nosso jogador pós-moderno finalmente fez a coisa certa.

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