Fado colonial

Mais de 64 mil pessoas estavam no belo estádio de Durban para ver um jogo que imaginavam de alta qualidade técnica, Brasil x Portugal. Não viram. Portugal entrou fechado e recuado, com a esperança de contar com Cristiano Ronaldo no contra-ataque, o que ele só fez com perigo uma vez. O Brasil novamente sentiu dificuldades demais para criar ou achar espaços, com muitos passes de lado ou errados. Apenas Nilmar tentava arranques, meio atabalhoado. Faltas pesadas, poucas chances de gol, sensação de que havia um acordo tácito - um fado colonial - em torno do empate. E tome vaias da torcida inteira.

DANIEL PIZA, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2010 | 00h00

Classificada ou não, o fato é que essa foi a segunda atuação medíocre da seleção brasileira em três jogos na Copa. As qualidades se confirmaram: zaga e goleiro firmes, lado direito forte, Luís Fabiano na referência de área. Os defeitos também: saída de bola lenta no meio, irritabilidade de Felipe Melo, falta de jogadas pela esquerda. Se alguém ainda tinha dúvidas de que Kaká e Robinho são fundamentais, o jogo de ontem as tirou. Julio Baptista não fez nada e Nilmar peca no fundamento do passe. No lugar de Elano, Daniel Alves tentou chutes e tabelas, sem a mesma regularidade. O banco de Dunga veio com alto déficit na carteira de armadores.

Dunga alega que o Brasil não é criativo porque os outros times ficam atrás da linha da bola. O curioso é que isso não aconteceu com a Argentina em nenhum dos jogos, com Portugal e Costa do Marfim diante da Coreia do Norte, etc. Para completar a lista de preocupações, Kaká e Robinho não parecem estar 100% fisicamente. Kaká está precisando treinar a mais e Robinho ficou de fora por dores musculares. O próximo jogo já será na segunda-feira, contra o Chile, que ontem começou bem contra a Espanha até que Villa, Iniesta e Xavi começaram a mostrar serviço (Torres e Fabregas continuam a dever). O time de Valdivia tem alguma habilidade e determinação, mas basta que o Brasil titular jogue o que sabe. Ou seja, que faça o que fez nos primeiros 25 minutos do segundo tempo contra a Costa do Marfim.

A primeira fase da Copa terminou de forma quase melancólica. A melhor coisa, depois de Shakira dançando "waka waka" na abertura, foi a animação sul-africana, agora arrefecida pelas más campanhas do continente. Apesar de leituras precipitadas por causa dos fiascos nada espantosos de França e Itália, classificaram-se seis europeias (que se confrontarão diretamente), cinco sul-americanas, duas asiáticas, duas da América do Norte e uma da África. Seguramente a seleção que jogou melhor até aqui é a Argentina e o craque, Messi. Sim, a história da Copa está cheia de exemplos de times que foram muito bem na primeira fase e ceifados no mata-mata depois. Mas os outros precisam melhorar.

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