Falsa realidade

O primeiro semestre de 2010 mudou o rótulo de Paulo Henrique Ganso. Para a maioria, naquele momento, o meia deixava de ser um ótimo jogador e se tornava craque. Para mim, também. Liderou, com Neymar, o Santos na conquista da Copa do Brasil e do Paulista, marcou alguns golaços e fez belíssimas assistências. Hoje, 13 ou 14 meses depois, tenho a impressão de que erramos. Ganso é excelente, mas acho exagerado chamá-lo de craque.

Eduardo Maluf, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2011 | 00h00

É normal que torcedores, dirigentes, técnicos e jornalistas se empolguem com o surgimento de um jovem talentoso. O futebol precisa de grandes jogadores, partidas emocionantes, personagens. Por isso, talvez, muitas vezes passamos do limite. Há algumas semanas, escrevi algo parecido sobre Alexandre Pato, um garoto que nunca confirmou em campo a fama de gênio da bola.

Não dedico esta coluna a Ganso por causa da fraca atuação na Copa América ou por estar jogando mal há algum tempo no Santos. Nem pela briga entre o clube e a empresa que agencia sua vida profissional. Mas pelo histórico da carreira. Será que não cobramos mais do que de fato ele pode oferecer?

Em 2009, ainda pouco badalado, foi bem em um time desestruturado que lutou para não ser rebaixado no Brasileiro. Em 2010, virou celebridade com brilhante desempenho no primeiro semestre - e dois títulos. Depois, machucou-se e não atuou mais. Em 2011, levantou outras duas taças. Precisamos lembrar, no entanto, que não participou de boa parte da campanha vitoriosa de sua equipe na Libertadores e esteve ausente da finalíssima do Campeonato Paulista, contra o Corinthians.

O paraense de 21 anos precisa fazer mais para ser chamado de craque. Tem tempo para evoluir em alguns aspectos e se tornar melhor do que é, embora já seja muito bom. Não por acaso, atrai interesse de vários clubes europeus.

Se tivesse de apostar, diria que Ganso sempre será ótimo, mas nunca chegará a gênio. A técnica, a inteligência e a visão de jogo fazem do santista um meia acima da média, daqueles raros hoje em dia. Falta-lhe, contudo, velocidade. A lentidão compromete em muitos momentos seu desempenho e facilita a marcação dos adversários, que passaram a conhecê-lo bem de um ano para cá.

Em um ou outro lance, com um passe desconcertante, pode fazer a diferença num confronto. E ainda faz. Suas assistências, porém, já não são tão frequentes como eram em 2010. O que mudou? Embora ainda tenha Neymar, o Santos perdeu velocidade em relação à primeira parte da temporada passada, quando contava também com Wesley, Robinho e André. As alternativas diminuíram e seu futebol caiu.

Num elenco bem arrumado, Ganso vai se destacar sempre. Num time desentrosado, como foi a seleção brasileira na Copa América, ou num conjunto irregular, como é o Santos pós-Libertadores, terá dificuldade. Não é aquele atleta que decide uma partida sozinho. Precisa de seus companheiros, ao contrário de Neymar, que em muitos jogos é a estrela solitária do Alvinegro praiano.

Mano Menezes segue confiando em seu talento, e o chamou para o amistoso com Gana, em setembro. Concordo com a convocação, apesar da má fase. Aliás, o setor de armação da seleção preocupa. Ronaldinho é incógnita - duvido que mantenha o bom futebol por muito tempo -, Fernandinho é fraco e Lucas, ainda jovem, tem mostrado irregularidade.

O presidente santista, Luis Alvaro de Oliveira Ribeiro, tem feito trabalho louvável na luta para segurar seus dois principais nomes, pelo menos até o Mundial de Clubes. Como apaixonado pelo esporte, fico feliz ao vê-los desfilar nos nossos campos, e não apenas pela TV em confrontos de torneios europeus. Mas, neste momento, tenho uma dúvida: será que não é hora de Luis Alvaro abraçar uma das propostas milionárias e negociar Ganso? Se fosse o dirigente, eu diria que sim. O meia já tem maturidade suficiente para se dar bem no exterior. E o Santos, com Neymar, Elano, Arouca e Borges no elenco, e dinheiro em caixa, poderia reforçar posições carentes e montar time de alto nível para buscar o bi da Libertadores em 2012.

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