Daniel Piza, daniel.piza@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

05 de março de 2008 | 00h00

Pierre, do Palmeiras, disse no intervalo da partida com o Corinthians no domingo: ''''Primeiro vem a marcação. O futebol moderno é assim''''. A frase já se tornou um chavão na boca de jogadores e treinadores, principalmente no futebol brasileiro, onde um jogo como esse tem nada menos que 39 faltas no primeiro tempo e todo mundo acha normal. Cadê o ''''futebol-arte''''? Sumiu. Qualquer jogo da Champions League, como se viu ontem ou se verá hoje, tem mais lances de categoria - e muito menos faltas - do que os clássicos nacionais.É sintomático que a frase tenha sido de um volante, por sinal muito bom no desarme. No dérbi, o Corinthians entrou com cinco volantes de origem. Luxemburgo, para responder a isso, começou com Wendell no meio. É o esquema 3-5-2: três zagueiros, cinco caras de marcação no meio-campo e dois lá na frente esperando uma bola espirrar... O que Pierre esquece é que, para alguém estar na marcação, é preciso que o outro esteja com a bola. E que saiba o que fazer com ela para não entregá-la de presente.Não por acaso, a vitória do Palmeiras premiou o elenco com mais técnica, num lance de gol que envolveu Diego Souza e Valdívia - dois jogadores de habilidade que o Corinthians não tem - e depois de Luxemburgo ter substituído Wendell pelo atacante Kléber. Como conversei outro dia com Pita, ex-meia do São Paulo, é errado supor que o futebol moderno, por ser mais corrido e ''''pegado'''', dispense meias e atacantes criativos, que pensam rápido, enganam a marcação e buscam o gol. É o contrário: justamente porque é preciso resolver problemas em menor tempo e espaço, a técnica pode fazer muita diferença. Pirlo, Fabregas e outros meio-campistas atuais são a prova de que não se vive só de desarme.O futebol mudou, mas armadores e goleadores continuam a se destacar em todas as partes do mundo. Valdívia melhorou porque Luxemburgo o tem colocado perto do centroavante, como já fizera com Robinho, que agora reencontrou seu futebol no Real Madrid pelo mesmo motivo. Em qualquer ''''pelada'''' o princípio é o mesmo: jogadores de qualidade devem atuar do meio para a frente e olhar para o gol o tempo todo. A história registra craques da defesa, obviamente; mas os craques do ataque são a razão de ser do futebol. Pelé mirava o gol como um miúra a caça, um míssil o alvo.É por isso que, quando o ataque falha na finalização, como Pato falhou ontem no jogo do Milan contra o Arsenal (apesar das tantas bolas que Kaká lhe deu), o preço é alto. Se o Corinthians tivesse jogadores melhores do que Lulinha e Herrera, certamente teria conseguido empatar com o arqui-rival no Morumbi.Bons atacantes, por sinal, nunca ficam fixos e sabem jogar sem a bola; sabem esperar seu momento para aproveitar as poucas chances de gol com sua técnica. Foi assim com Van Basten, Careca, Ronaldo e até Romário nos bons tempos; é assim com Eto''''o, Henry, Luiz Fabiano. Não é tarefa para qualquer um. Adriano, que os comentaristas brasileiros queriam como centroavante titular na Copa de 2006, é o maior exemplo de que força física não basta. Ele só pensa depois que recebe a bola no pé, e nem sempre pensa no melhor. É tudo menos moderno.

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