Fama repentina

Alguém põe em discussão o talento de Neymar, Ganso e Lucas? Não, certamente. Mas muitos já os elevam a jogadores de outro planeta, craques, gênios, fora de série. O torcedor, claro, se empolga rapidamente quando surge alguém "diferenciado", palavra da moda nos últimos anos. Nós, da imprensa, queremos cada vez mais nomes de peso para aumentar o atrativo dos jogos, valorizar as transmissões da televisão. E seus empresários buscam fazer dinheiro rápido. Um fenômeno que tem afetado, acima de tudo, os próprios atletas, sem estrutura nem assessoria para lidar com a abrupta mudança de vida.

Eduardo Maluf, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2011 | 00h00

Eleger craques que depois desaparecem e encerram a carreira como esportistas medianos não é novidade no futebol. Nem é o caso dos três garotos. Mas preocupa cada vez mais a ansiedade desses meninos em ficar milionários, ser badalados, jogar na Europa. É claro que têm o direito de sonhar, de ir atrás do sucesso internacional. E de se entusiasmar com a repercussão de suas grandes jogadas na mídia. Não podem, jamais, perder a ambição. Precisam, contudo, ter os pés no chão para evitar trombadas no caminho. Algo que, muitas vezes, seus empresários e assessores não têm.

Escrevo tudo isso para dizer que não me surpreendi com as vaias da torcida santista (ou parte dela) a Ganso na derrota de domingo para o Palmeiras. Foram normais. Assim como o comportamento frio em relação ao camisa 10 na vitória sobre o Colo Colo. O meia recebe ótimo salário, é valorizado no clube e tem contrato até 2015. Por que iniciar o ano querendo plano de carreira igual ao de Neymar? Por que dizer que não chegou a acordo com o Santos? Que acordo!? Seu vínculo vai longe... Por que surgiram notícias de que poderia se transferir para o rival Corinthians? Seguramente não foram inventadas pelos vários jornais que as publicaram.

Ganso é ótimo. Passa bem, chuta bem, tem visão de jogo, é inteligente. Um raro meia nos tempos de hoje. Fora de campo, parece ponderado, maduro para os seus 21 anos. Precisa, porém, de um pouco de calma. Vamos voltar no tempo e fazer um resumo de sua carreira. Apareceu, de fato, em 2009, com razoável participação no Brasileiro. Em 2010, brilhou no primeiro semestre e liderou, ao lado de Neymar, o Santos na conquista do Paulista e da Copa do Brasil. Ponto final. Depois, machucou-se e retornou apenas agora ao futebol. A rigor, foi bem demais em um semestre - e mostrou suas credenciais. Mas um semestre não é pouco? Ganso ainda pode e deve dar bem mais ao Santos, embora seus empresários e talvez ele mesmo não queiram. Uma pena! Que, pelo menos antes de partir, consiga repetir o futebol do início de 2010 e ajude o Santos na difícil missão de avançar na Libertadores (Muricy chegou tarde e, mesmo com os 3 a 2 de anteontem, eu não apostaria alto na classificação).

Os jornalistas Cláudio Augusto, fanático santista, e Luiz Zanin, que ocupa este espaço às terças, foram contundentes quando Robinho deixou a Vila, em 2005: "Vai ficar milionário, mas deixará de ser o ídolo que é". Na mosca! Robinho foi fantástico por aqui. E medíocre no Real, no City e agora no Milan. Faltou-lhe paciência.

Alexandre Pato, herói do clássico de Milão no sábado, simboliza essa história. Deixou Porto Alegre depois de um semestre bem jogado pelo Inter, apontado por Abel Braga, seu então técnico, dirigentes, etc., como futuro grande craque do mundo. Já se foram quatro anos desde que chegou à Itália, e até agora não se pode dizer que teve um ano completo de encher os olhos. Torço para que seu bom momento vire realidade e não seja só mais uma fase passageira. Pato é jovem, 21 anos, e tem tudo para se tornar o craque em que muitos apostavam em 2006/2007. Mas, com a licença de seus inúmeros fãs e de Barbara Berlusconi, ainda não é.

Sofrer um pouco mais em campos brasileiros pode ser bom, dar bagagem e vivência para voos mais altos. O lépido são-paulino Lucas que o diga, depois de ter sido anulado em dois jogos por um desconhecido zagueiro do Santa Cruz, da Quarta Divisão nacional.

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