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Antero Greco
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'Fast food'

O brasileiro ficou mal-acostumado com a seleção que era dele e hoje pertence só à CBF e a quem a arrendou. Durante décadas, fartou o espírito com banquetes preparados por mestres-cucas da bola. Mesmo em períodos de trivial variado, de um simples arroz com feijão, farofa bife e batatinha frita, o sabor se mostrava especial, diferenciado. Cozinheiros modernos, já chamados de chefs (porque sofisticados e europeizados e famosos), até anos atrás mantiveram qualidade de antecessores rústicos.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2015 | 02h02

Agora, o público contenta-se com fast food, a comida de plástico, com gosto de nada. O torcedor engana o estômago com quebra-galho e se regala com resultados de uma equipe de produção em série, em que o único a fugir da mesmice é Neymar.

O nível de exigência caiu, empobreceu o padrão de cobrança da seleção. Faltam craques, líderes, personagens marcantes. Não é de agora que empurram goela abaixo da plateia time de pouca excelência - e esta acredita, por carência, por ausência de senso crítico e por insistência da propaganda. Futebol é negócio, tem de vender de tudo, de audiência a telefone e camisa.

Dessa maneira, se entende por que se dá por satisfeito com a vitória por 2 a 0 sobre o mistão do México, no amistoso disputado no final da tarde no estádio do Palmeiras. O que se viu foi seleção comportada, cadenciada, com jogadores a seguir à risca as determinações do técnico. Sem brilho excessivo, tampouco opaca. Sem molho, mas sem chegar a ser insossa. Algo como "é o que temos para oferecer no momento".

O time da CBF escalado por Dunga não encantou, nem decepcionou - seguiu a toada das vitórias nos oito jogos anteriores sob o novo comando. Não aplicou surra nos mexicanos, assim como não levou sufoco na defesa. Depois dos 7 a 1, muitos sentem alívio se a seleção não passar vergonha. O que não aconteceu após o Mundial. É pouco.

Na turma que iniciou a partida, destaque para Danilo, Miranda e Filipe Luís na defesa. Jefferson apareceu menos e David Luiz tem carisma com o público, mas abusa do estilo desengonçado. No meio, Fred, Elias, Willian e Philippe Coutinho foram leves; precisam soltar-se. Fernandinho esteve discreto. Philippe foi o melhor e ainda marcou bonito gol, sem ângulo. Diego Tardelli apareceu só na hora do gol.

Como costuma acontecer em jogos desse tipo, o primeiro tempo teve lances bons. Na segunda parte, com o festival de alterações, se descaracterizou como espetáculo - e caro, a renda chegou a R$ 6 milhões - e interessou mais aos treinadores para observações.

A seleção fica à espera da chegada do astro Neymar, para recebê-lo com tapete vermelho, pompa e circunstância.

"Honra ao mérito". As medalhas da escola antigamente vinham com essa inscrição e causavam inveja. Pelo que tem feito, Neymar merece as medalhas e mais medalhas ganhas - sem ninguém que as surrupie. O moço continua, na Europa, a trilha de sucesso que despontou, cresceu e amadurecia no Santos antes que batesse asas em direção ao Barça. A temporada 14/15 foi a prova de que não se trata de invenção da mídia nem fogo de palha.

Há, evidentemente, enorme marketing em torno dele. O jovem astro é mina de ouro, para si, para o clube, para patrocinadores. Sorte dele, que tem carisma. Porém, justifica a fama essencialmente com futebol. Com lindo futebol. Atrevido, eficiente, criativo; decisivo também.

Os que não se curam de dor de cotovelo alegam que Neymar brilha por estar cercado de estrelas. Ótimo, e meia verdade. Sobressaiu no Santos e na seleção com formações medianas. Melhor ainda se um virtuose do quilate dele tiver companheiros à sua altura. Refina o recital geral.

Desperdício. O Palmeiras contrata, contrata e não tem time. Na derrota para o Figueirense por 2 a 1, ontem à noite, mais uma vez se mostrou um amontoado de jogadores, sem confiança nem ousadia. E continuam com medo de chutar a gol.

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