Favelado corre por uma casa nova

Na corrida mais famosa do Brasil está depositada toda a esperança do desempregado Souza Elias Ferreira, de 35 anos. Morador da Favela da Rocinha, localizada no bairro do Jabaquara, zona sul de São Paulo, Elias pretende conquistar o primeiro lugar da prova ? e o prêmio de R$ 21 mil ? para construir um novo barraco. O seu escorrega, a cada dia, rumo ao córrego Águas Espraiadas. ?Eu sei que o dinheiro não é muito, mas vou tentar ganhar. Meu barraco está cada vez caindo mais?, explica. O barraco do pernambucano Elias, onde vivem mais seis pessoas ? mulher, filhos e enteado ?, está na parte da favela conhecida como Minhocão. Ao estilo das palafitas, as casas de 93 famílias são sustentadas por pontaletes de madeira, fincados na margem do córrego. As sucessivas enchentes, porém, têm provocado erosão e os barracos estão prestes a cair. O último alagamento foi no início de dezembro e vários casas desabaram. ?Foi quando eu tive a idéia de ir para a São Silvestre?, admite. Os R$ 55,00 da inscrição foram dados pela mulher. ?Ela disse para devolver quando ganhar a corrida?, diz Elias. Nas ruas de São Paulo, desfilará com o número 307 no peito e nas costas. O chip entregue pela organização da corrida, que serve para marcar o exato tempo do atleta, porém, estará preso na bermuda. Elias correrá a São Silvestre descalço, da mesma maneira que treina e anda pela favela. ?Eu tenho tênis, mas me machuca?, conta. Ele já disputou a prova outra vez, em 1998. Terminou a corrida, mas não lembra em que posição. ?Acho que uns 3 mil passaram na minha frente.? Entre os bicos que faz, recolhendo materiais recicláveis, o corredor se prepara. Por volta do meio-dia e no início da noite, Elias pode ser facilmente encontrado na Avenida Roberto Marinho ou na bicicleta ergométrica que tem em casa. Por dia, são cerca de quatro horas. ?Já tentei correr até passar mal, desmaiar mesmo. Como não aconteceu nada, acho que estou bem preparado.? Quem aplaude a persistência de Elias é a líder comunitária Elizabete Gonçalves, da Associação de Mulheres de Luta da Rocinha. ?Ele merece ganhar e sair daquele lugar. Somos favelados, mas merecemos uma moradia digna.?

Agencia Estado,

31 de dezembro de 2005 | 10h51

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