Favorito da SS é cego de um olho

Tesfaye Jifar, um etíope de 26 anos, que corre há apenas quatro, e é cego do olho direito - por causa de uma chifrada que levou de um touro, quando garoto - , é o personagem principal da 77.ª edição da Corrida Internacional de São Silvestre. Jifar, que nasceu em Ambo, Etiópia, não teve tempo, na curta carreira de fundista, de provar que é daqueles fenômenos que surgem de vez em quando em países do terceiro mundo. Este ano, apareceu para o mundo ao vencer nada menos que a tradicional Maratona de Nova York, em novembro, em grande estilo. Levou US$ 80 mil pelo título. E ainda bateu o recorde dos 42km195m, com o tempo de 2h07min43, pelo qual ganhou mais US$ 50 mil - quebrou uma marca, que era do tanzaniano Juma Ikangaa e durava 12 anos. Além do dinheiro ganhou fama, tanto que já tem convite e cachê garantido, de US$ 100 mil, para disputar a Maratona de Londres, em abril, correndo na prova em que os organizadores promoverão o duelo entre o pentacampeão da São Silvestre, o queniano Paul Tergat, e na estréia, em maratonas, do mais ilustre fundista de pista de todos os tempos, o etíope Haile Gerbrsselassie. A São Silvestre, amanhã, faz parte do treino de Jifar para a Maratona de Londres disse, hoje, o fundista que mora e treina em Adis-Abeba, capital etíope. Ainda acrescentou que gosta de correr em São Paulo e foi aconselhado por seu agente, o holandês Jos Hermnes, a vir ao Brasil. Não sabe se pode vencer "uma distância curta, e rápida, como os 15 Km"-, não tem informações sobre os rivais, mas conhece o percurso - foi terceiro colocado no ano passado. Jifar, de 1,73 m e 53 quilos, tem uma história surpreendente. De família de fazendeiros, tinha a incumbência de cuidar do gado, aos 14 anos, quando sofreu o acidente que o cegou do olho direito. O holandês Michel Boeting, que o acompanha ao Brasil, explicou que embora os africanos sejam corredores que correm em grupos, Jifar prefere estar sozinho no percurso, exatamente por não ter a visão dos adversários do lado direito. "Mas isso não me atrapalha", diz o fundista. Outra curiosidade é o fato de Jifar ter começado no atletismo há apenas quatro anos. Michel explica que Jifar foi para as pistas pela primeira vez por influência do irmão Habber, que era um excelente especialista nos 10 mil metros. Tanto que a primeira prova que correu foi justamente nessa distância, mas na Etiópia. Quando fez uma corrida na Itália foi convidado pelo agente holandês a correr maratonas. Em sua primeira corrida longa, em Amsterdã, também em 1998, foi vice-campeão (2h06min49). No ano passado foi também vice-campeão do Mundial de Meia Maratona (1h00min04), para vencer em 2001 a sua única primeira corrida, justamente a Maratona de Nova York. Mesmo apontado como favorito não se considera candidato ao topo do pódio na São Silvestre. "É uma corrida puxada e 15 quilômetros não é minha distância."

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