Faz de conta

A gente pode não simpatizar com métodos de administração da cartolagem nacional. Nem por isso dá para afirmar que os barões da bola sejam bobalhões. Ao contrário, é turma esperta demais. Ao menor indício de que algo desponta como ameaça ao poder deles, tratam de neutralizá-lo, ou com lobby ou a optarem por mudanças que no fundo não alteram grande coisa.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

04 Março 2015 | 02h01

Tomemos como exemplo a discussão da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte (LRFE). O assunto foi abordado aqui diversas vezes e, em português bem simples, trata do seguinte: os clubes terão dívidas oficiais parceladas em suaves prestações mensais, desde que se comprometam a honrar prazos e contrapartidas. Uma delas é a de que os dirigentes entrarão pelo cano em caso de calote.

O cabo de guerra corre solto, nos bastidores de CBF, federações e sobretudo no Congresso. De um lado, há o governo disposto a endurecer a questão e acabar com a farra de gastos irresponsáveis dos clubes. Nisso tem a concordância do Bom Senso. De outro, a bancada da bola faz força danada para enfiar itens que suavizem a lei. Uma das preocupações é a de tirar o peso das costas dos cartolas que descumprirem o que for estabelecido. Ou seja, abrir brechas para driblar punições.

Nesse meio tempo, a CBF convoca os 20 representantes dos clubes da Série A para discutirem regulamento e calendário do Brasileiro de 2015. No meio da conversa, apresenta um artigo no qual se prevê perda de pontos para quem atrasar ou deixar de pagar salários dos jogadores. Obtém aprovação unânime.

O otimista dirá que a cartolagem enfim se rendeu ao fair-play financeiro e aceita um ponto que coloca em risco o caminho das respectivas agremiações. O mais cético, e me incluo nessa, levanta questões. A primeira: para o clube ficar na mira, é necessário que o atleta prejudicado recorra ao tribunal esportivo e denunciar a dívida. Terá o jogador coragem de tomar tal atitude?

Segunda observação: quem garante que a punição será igual para todos os que incorrerem em falta idêntica? Como ter certeza de que pontos não serão tirados ou poupados ao sabor dos ventos que sopram na classificação? Terceira: quem pode jurar que esse artigo não seja só pra inglês ver e mostrar que os clubes não precisam da LRFE?

Um detalhe a não passar batido. Tanto na reunião de segunda-feira como nos debates de ontem em Brasília esteve presente Eurico Miranda. Até aí nada de extraordinário, pois se trata do presidente do Vasco e é dever e direito acompanhar tudo de perto. Interessantes as declarações dele, que faz parte de um grupo que estuda a volta do mata-mata no campeonato nacional (evidentemente, é a favor do artifício).

Pois Eurico Miranda acena com a possibilidade de não aderir à LRFE, caso seja aprovada, sob a argumentação de que seu clube fará acordo alternativo para pagar dívidas. Defende, também, a CBF como entidade a cuidar do tema, sem interferência governamental. E avisa que não tratará nada com o Bom Senso, "cheio de acadêmicos" que não entendem de bola e de "estudantes de teatro".

E agora, Doroteia? Desce o pano.

Segundo teste. O Corinthians passou com louvor na estreia na Libertadores, com os 2 a 0 sobre o São Paulo, duas semanas atrás. O desafio de hoje será contra o San Lorenzo, na casa do atual campeão da América, e a rapaziada de Tite tem condições de repetir a boa dose.

O time terá alterações, motivadas por opção técnica, contusões e suspensão. Ainda assim, é forte para no mínimo arrancar empate. Edu Dracena começa na zaga, em sinal de que o técnico aposta em experiência. Mendoza fica com a vaga de Emerson Sheik, oficialmente contundido, mas com um puxão de orelhas por atrasos constantes. E Danilo, o multiúso, terá a função de enfiar-se entre os zagueiros, quase à maneira de centroavante, uma vez que Guerrero continua a purgar punição. Uma formação para resistir a pressão e, na teoria, apelar para o contragolpe.

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