Fazer bonito

Os Jogos de Londres finaram há poucas horas, as imagens de vitórias, derrotas, medalhas, recordes continuam fresquinhas e já paira no ar a expectativa do que ocorrerá no Rio, dentro de quatro anos. Um sentimento a tomar forma é o de que o Brasil precisa "fazer bonito" na Olimpíada da qual será anfitrião. Por fazer bonito se entende organizar impecavelmente a festa, como ocorreu nas edições mais recentes, e frequentar o pódio com maior regularidade. Manda o figurino que os donos da casa sobressaiam no quadro geral - quer dizer, pelo menos ostentem colocação honrosa, quando não se trata de potência esportiva. Foi assim com a Grécia, em 2004, imagina-se o mesmo no nosso caso.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2012 | 03h03

O Brasil provavelmente estabelecerá marca nova com o desempenho de seus atletas - pode-se prever coleção de medalhas mais vasta do que as 17 na bagagem da delegação no retorno da aventura na Inglaterra. Há projetos em andamento para tal, e quantias generosas cairão na conta das confederações para garantir que a turma de cá possa fazer bonito diante dos gringos. O hino nacional será tocado em muitas ocasiões, animem-se os pachecos. E ouvirão à exaustão outro bordão do momento que voltará à cena: "fazer história".

Não há dúvida de que, como hospedeiro afável, o brasileiro receberá os estrangeiros com amabilidade. Os visitantes sairão daqui encantados com simpatia, calor humano, paisagens, comida farta e variada, com instalações modernas para as competições e muito jogo de cintura para resolver imprevistos. Não se deve temer fiascos nesse aspecto, tampouco haverá catástrofes nos resultados. Judô, futebol, vôlei, vôlei de praia, iatismo, natação beliscarão galardões, como de praxe.

Mas fazer bonito está além de ter todos os equipamentos em funcionamento ou de cumprir ao pé da letra as exigências do Comitê Olímpico Internacional. E não significa também apenas aparecer bem na classificação final, com tantas medalhas de ouro, prata ou bronze - provas de eficiência e competitividade. Isso só vale para dirigentes almofadinhas que se eternizam no poder com discurso oco.

Fazer bonito, na parte material, é construir arenas, estádios, pistas, piscinas, ginásios, conjunto habitacional (a Vila) que se harmonizem com a arquitetura da cidade, que não agridam o bolso do contribuinte, que melhorem o cotidiano do cidadão, que se transformem, após a cerimônia de encerramento, em benefícios permanentes. Símbolos de nova mentalidade cívica e esportiva. Fazer bonito é não largar como sucata obras que consomem bilhões, é oferecer um legado à população e não promessas vazias como as do Pan de 2007. Fazer bonito é ter transparência nos orçamentos, nos gastos; não tripudiar do nosso dinheiro, do nosso discernimento.

Fazer bonito, no campo esportivo, não é necessariamente colecionar medalhas. Não adianta turbinar resultados; não leva a nada forjar uma realidade dourada, com trocadilho e tudo. Mostrar que o País saltou de 17 para 25, 30, 40 medalhas só terá valor, se for consequência de mudança de postura, se sinalizar uma tendência e não se for apenas fenômeno pontual. Isso será enganação.

Fazer bonito é aproveitar a onda de entusiasmo com os Jogos e difundir o esporte como parte indissociável da educação, da saúde, da integração social. Fazer bonito é disseminar instalações esportivas pelo Brasil, é olhar a base e não somente o atleta de alto rendimento, aquele já forjado. Uma geração olímpica não se faz em quatro anos - e o País perdeu tempo demais. Os chineses não deram salto de qualidade em 2008 porque iniciaram projeto em 2004. Eles começaram bem antes.

Fazer bonito é pensar em medalhas em 2020, 24, 28... como desdobramento de plano para sermos nação saudável, instruída. Assim é fazer bonito. O resto é somente encenação. Disso estamos cansados - e, parece, o governo também. Amém.

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