Alex Halada/AFP
Alex Halada/AFP

Federação internacional impõe limites a tênis tecnológico e veta uso de protótipos no atletismo

Calçado utilizado por Eliud Kipchoge em Viena, quando correu a maratona abaixo das 2h, não poderá ser usado em competições

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2020 | 16h49

A World Athletics, a federação internacional de atletismo, divulgou nesta sexta-feira novas normas para o uso de calçados nas competições esportivas. Entre as principais mudanças na regulamentação estão o limite de 4 centímetros para a altura da sola e a utilização de apenas uma placa de carbono dentro do tênis, mas sem cobrir toda a extensão da sola. Outra obrigatoriedade é que o modelo necessita estar à disposição em lojas esportivas.

Com isso, qualquer protótipo não poderá ser usado nas competições até que seja analisado e colocado no mercado com quatro meses de antecedência, a partir do dia 30 de abril deste ano. O impacto maior será nas provas de longa distância, nas quais esses equipamentos fazem diferença. Nas disputas de velocidade, como os 100m rasos, os competidores continuarão usando sapatilhas com travas.

"Não é nossa função regular todo o mercado de calçados esportivos, mas é nosso dever preservar a integridade das competições de elite, garantindo que os tênis usados não ofereçam vantagem injusta. É um ano olímpico, então podemos traçar uma linha proibindo o uso de sapatos que ainda não estão no mercado enquanto investigamos mais", disse Sebastian Coe, presidente da entidade.

O resultado dessa normativa da entidade que rege o atletismo no mundo acabou sendo uma vitória da Nike, que poderá ter seus tênis que são vendidos em lojas nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Há alguns anos a federação internacional vem sendo questionada sobre um modelo de calçado lançado pela Nike. Alguns críticos consideram um "doping tecnológico". Para resumir, o tênis Nike Zoom Vaporfly 4%, apresentado em 2017, conseguiu trazer avanços que ajudaram a melhorar os tempos da maratona. E um dos trunfos dele é a placa de fibra de carbono que está no interior do tênis.

"Acompanhei a evolução desse calçado, que foi de uma para três placas de fibra de carbono. É parecida com aquelas lâminas de atleta paralímpico amputado das duas pernas. Se reparar nas provas, ele larga e fica muito para trás, mas a lâmina armazena energia. A partir de um determinado tempo da prova, ele ganha uma velocidade absurda. Na maratona, e nas provas mais longas, a energia acumulada impulsiona o passo", explica Ricardo D'Angelo, gestor do Instituto Vanderlei Cordeiro de Lima e da Orcampi.

A promessa da empresa era de que o Vaporfly melhoraria o desempenho em 4%, ou seja, em um tempo de 2h10min para a maratona, algo muito bom, o atleta seria até cinco minutos mais rápido. Desde então, as cinco marcas mais rápidas da prova no masculino vieram em sequência, todos com atletas usando este calçado. Entre as mulheres, duas das cinco marcas mais rápidas foram com o calçado. Incluindo o novo recorde mundial da queniana Brigid Kosgei, que fez 2h14min04s, tempo 81 segundos mais rápida que a marca anterior.

A atleta africana estava usando o Next%, uma evolução do 4% e que, entre outras coisas, tem 15% a mais de espuma que a versão anterior e segundo a fabricante é capaz de fornecer até 85% de retorno de energia. O modelo foi lançado em junho do ano passado e tem um custo de R$ 1.399,99 no Brasil. O tênis é vendido nas lojas virtuais da Nike, que costuma colocar pequenos lotes à venda e eles esgotam em poucos segundos devido à alta procura – muitos corredores amadores querem utilizar o Next% para melhorar seus tempos nas ruas.

Ricardo D'Angelo até faz uma comparação entre o avanço dessa tecnologia com o que houve em outras modalidades esportivas. Na Fórmula 1, por exemplo, a FIA (Federação Internacional do Automobilismo) regulamenta qualquer mudança e impõe limites, em discussão com as equipes do campeonato.

Em 2009, a Fina (Federação Internacional de Natação) votou por banir da modalidade os maiôs tecnológicos. Na época, a Speedo tinha um traje de corpo inteiro, usado inclusive no masculino, e mais de 100 recordes mundiais foram quebrados. Depois disso, os homens voltaram a usar apenas calção e muitas marcas daquela época persistem até hoje.

"A federação optou pela integridade no atletismo. É como a Fórmula 1 e como ocorreu na natação. Acredito que vai ser até benéfico. Não está proibindo a tecnologia, as outras empresas que quiserem acompanhar vão ser dentro dessas regrinhas. A Nike trabalhou numa tecnologia, o tênis realmente é um sucesso, as modificações produzem melhora no desempenho e os resultados mostram isso. Agora vem a tentativa de dar um padrão", comenta D'Angelo.

O maior garoto-propaganda desse tênis tecnológico é o queniano Eliud Kipchoge, que em outubro do ano passado correu uma maratona em Viena com um tempo recorde – não homologado por ter sido realizados em condições não aceitas pela World Athletics. Ele percorreu os 42.195 metros da prova abaixo de 2 horas, algo impensável anos atrás. Tudo graças principalmente ao protótipo da Nike que utilizou, o AlphaFly. Ele tem uma sola mais alta que os 4 centímetros permitidos e conta ainda com duas bolsas de ar no interior. Nos padrões atuais, ele não pode ser usado em competições oficiais e não estará nos Jogos de Tóquio.

Inicialmente, a tecnologia nesses calçados era voltada para atletas das provas de fundo em corrida de rua, como maratona, meia maratona, 10 mil metros e 5 mil metros. Mas com o sucesso do modelo, a Nike começou a produzir sapatilhas de pregos no mesmo conceito, que atualmente são usados por competidores de 800m e 1.500m. A World Athletics também fez especificações para as sapatilhas.

Procurada pela reportagem do Estadão, até a publicação desta matéria a Nike não havia se posicionado sobre as novas regulamentações do atletismo. A adidas, uma outra empresa que disputa esse mercado de calçados para corredores, também preferiu não se manifestar neste momento. “Informamos que, de acordo com um posicionamento global, a adidas não vai comentar o assunto”, disse a empresa em nota.

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