Fenômeno da superação

Ronaldo calou cada profeta de sua aposentadoria muitas vezes. Agora, enfim, afasta-se dos campos com uma popularidade comparável à de Pelé

Wilson Baldini Jr., O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2011 | 00h00

O dicionário afirma: "Fenômeno: aquilo que é raro, surpreendente, prodígio. Pessoa que tem algo anormal ou extraordinário". Ronaldo Luís Nazário de Lima foi tudo isso durante os 18 anos de carreira profissional no futebol, justificando o apelido dado pela imprensa italiana na época de sua passagem pela Internazionale de Milão. Hoje, às 12h40, no Centro de Treinamento do Corinthians, anuncia a aposentadoria, aos 34 anos, não da forma que gostaria. Em seus 26 meses de clube, não conseguiu realizar o sonho da Fiel de conquistar o título da Taça Libertadores, apesar do grande futebol no primeiro semestre de 2009, quando ajudou e muito o clube a se sagrar campeão paulista invicto e da Copa do Brasil.

Mas Ronaldo não tem do que reclamar. Talvez, depois de Pelé, seja o jogador que mais obteve espaço na mídia, graças às suas façanhas em campo. Tudo começou no futebol de salão do São Cristóvão. Chegou a ser recusado por Botafogo, Flamengo e São Paulo. Acabou no Cruzeiro, que acreditou no seu potencial, após a disputa do Sul-Americano Sub-17. O Brasil ficou apenas na quarta posição, mas o então jovem atacante foi o artilheiro com oito gols.

Aos 17 anos, em 1994, foi o artilheiro do Campeonato Mineiro, com 21. Ganhou vaga na seleção principal para a Copa dos Estados Unidos. Reserva, viu do banco Romário e Bebeto fazerem os gols que trouxeram o tetra.

Vendido ao PSV, da Holanda, marcou 67 gols em 71 jogos. Trinta deles só no Campeonato Holandês, superando Patrick Kluivert, do Ajax, que fez 18. Em 1996, o Barcelona pagou US$ 20 milhões por seus direitos. Apesar de perder o título espanhol para o Real Madrid por apenas dois pontos, foram 34 gols em 37 jogos. Ajudou a equipe a levantar as taças da Copa do Rei e da Recopa Europeia, com direito a gol na decisão contra o Paris Saint-Germain. Em 49 jogos fez 47 gols, alguns dos quais antológicos, como aquele contra o Santiago de Compostela em que atravessou o meio campo driblando quatro adversários.

Tanto sucesso repentino, com o título de melhor jogador do mundo pela Fifa, fez o interesse da Internazionale de Milão ficar cada vez maior. E insustentável para o Barça. Com isso, a transferência para o futebol italiano não demorou. Ronaldo foi recepcionado por dezenas de milhares de torcedores no Estádio Giuseppe Meazza, vestindo a camisa 10. O título no calcio não apareceu, mas foram 14 gols em 19 jogos oficiais. A conquista da Uefa na temporada 1997/1998 deixou os italianos enlouquecidos, o que valeu ao brasileiro o apelido de Il Fenômeno.

O ano de 1998 só não foi perfeito por causa da decepção da seleção brasileira na Copa da França - derrota para os anfitriões por 3 a 0 e com Ronaldo assustando o mundo todo, após sofrer uma convulsão horas antes da decisão.

Lesões pouco deixaram que Ronaldo vestisse a camisa da Inter. A perda do título para a Lazio na última rodada foi um trauma para o atacante, que daria a volta por cima na Copa do Mundo da Ásia, em 2002. Foi o artilheiro e comandou o triunfo junto de Rivaldo.

De volta a Milão, o mau relacionamento com o técnico argentino Héctor Cúper fez o brasileiro forçar a saída para o Real Madrid. Lá formou a equipe dos galácticos, ao lado de Zidane, Beckham, Roberto Carlos & Cia. Mas o sucesso de marketing fora de campo não garantiu títulos. O Real perdeu espaço para o Barcelona e os renomados jogadores, até mesmo Ronaldo, foram perdendo espaço.

O mau desempenho na Copa de 2006, com novo revés diante da França, encerrou sua participação na seleção. Em fevereiro de 2008, já pelo Milan, sofreu outra grave lesão de joelho. Veio fazer tratamento no Flamengo, mas acertou com o Corinthians. Teve seis meses de sucesso, mas uma fratura na mão acabou com sua forma, nunca mais recuperada. O último jogo foi decepcionante: derrota para o Tolima, no dia 2, e eliminação da Libertadores.

ELOGIO

ZINEDINE ZIDANE

Craque francês em 2000

"Tenho certeza de que, quando tudo passar, ele vai se recuperar e voltará a ser o número 1 do futebol mundial"

Sua imagem é uma fonte ininterrupta de altos lucros

A imagem de um atleta é o bem mais duradouro que ele tem. E desde cedo Ronaldo soube explorar isso, tanto que hoje sua fortuna está calculada em cerca de R$ 1 bilhão. A Ambev mantém o vínculo mais antigo com o astro. O contrato foi assinado em 1994, quando Ronaldo estourou no Cruzeiro. Embora seu talento como jogador seja reconhecidamente imenso, só uma parcela menor de seu patrimônio veio de altos salários. A grande parte de seus bens foi acumulada por meio de seus contratos com grande empresas, como o vitalício que mantém com a americana Nike. Mesmo no último ano, quando foi chamado de "gordo", o Fenômeno faturou o que embolsava no auge da carreira: cerca de US$ 8,2 milhões (R$ 13,7 milhões), conforme o jornal espanhol "El Mundol" estimou, em 2003, que ele faturava anualmente.

TRAJETÓRIA FENOMENAL

O início

Nascido em Bento Ribeiro, subúrbio do Rio, Ronaldo aprendeu a fazer as jogadas que mais tarde encantariam o mundo no futsal. Chegou a atuar por duas equipes cariocas antes de ir para os gramados: o Valqueire Tênis Clube e o Social Ramos Clube. Sonhava em jogar pelo Flamengo, mas não tinha dinheiro para pagar as passagens de ônibus e ficou no São Cristóvão, clube que ficava perto de sua casa e ainda pagava por seu transporte. Em 1992, o Fenômeno foi vendido por R$ 7,5 mil para dois empresários, que o repassaram para o Cruzeiro. Ronaldo passou a ser uma grande fonte de renda da equipe. O clube formador tinha direito a 5% do valor de cada uma de suas transferências e rendeu dinheiro ao São Cristóvão em cada transferência sua.

A ascensão

Ronaldo tornou-se conhecido mesmo no Cruzeiro. Estreou aos 16 anos no clube mineiro, durante o Campeonato Brasileiro de 1993. Ali já mostrou a que viria: marcou 12 gols em 14 partidas. Em 1994, fez mais: 21 gols pelo Mineiro.

A fase galáctica

O título da Copa do Mundo de 2002 alçou Ronaldo ao maior objeto de desejo do futebol mundial. Transferiu-se para o Real Madrid, onde marcou 104 gols e conquistou duas taças do Campeonato Espanhol: 2003 e 2007.

PERFIL

RONALDO L. N. DE LIMA

CARIOCA, DE 34 ANOS, FOI BICAMPEÃO MUNDIAL COM A SELEÇÃO

Carreira: Começou no São Cristóvão. Passou pelo Cruzeiro e foi jogar na Europa em 1994: PSV, Barcelona, Inter de Milão, Real Madrid e Milan. Em 2008 voltou ao Brasil para vestir a camisa do Corinthians.

FEITOS INCRÍVEIS

15 gols marcou Ronaldo nas quatro Copas do Mundo em que esteve com a seleção brasileira. Em 1994, ficou todo o tempo na reserva. Em 1998, na França, foram quatro. Em 2002, na Ásia, além do penta, fez oito gols. Em 2006, foram mais três na Copa da Alemanha.

62 gols o Fenômeno marcou pela seleção principal do Brasil, em 12 anos. Ele começou a vestir a camisa verde-amarela em 1994, antes da Copa dos Estados Unidos. Foi titular até o Mundial da Alemanha, em 2006. Ele só fica atrás de Pelé, que anotou 95 gols.

414 gols fez Ronaldo em sua carreira.

Pelos clubes nos quais atuou foram: 44 pelo Cruzeiro, 54 no PSV, 47 no Barcelona, 59 na Internazionale de Milão, 104 no Real Madrid, 9 pelo Milan,

35 no Corinthians, além dos 62 pela seleção.

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