Fenômeno Lochte treina empurrando rodas de caminhão

Vencedor dos 400m medley, americano segue programa de exercícios preconizado em programa de TV

Alessandro Lucchetti - Enviado especial, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2012 | 03h04

Michael Phelps nasceu com o corpo totalmente favorável à prática da natação. Seus pés são grandes a ponto de funcionarem como pés de pato. Tem quase três metros de envergadura e pernas curtas, considerando-se a proporção imaginável para um homem de 1,93m. Se fossem mais compridas, o prodígio de Baltimore, que tem 88 quilos, desperdiçaria energia para movimentá-las.

Com 1,88 metro e os mesmos 88 quilos do adversário, Ryan Lochte é o mais sério adversário de Phelps. É um sujeito com compleição normal, e que não foi presenteado pela genética com braços e pernas tão funcionais. Por esse motivo, foi obrigado a construir, com esforço, um corpo que lhe permitisse desafiar Phelps.

O nadador de Rochester, que se prepara junto aos Gators, da Flórida, se fortalece de maneira inusual. Por sugestão de Matt Delancey, seu treinador na Universidade da Flórida, segue a exótica preparação prescrita aos competidores do Strongman (Homem Forte, em inglês), um popularíssimo programa da TV norte-americana. Os gigantes dessa atração, com mais de 100 quilos, disputam qual deles levanta pedras maiores, arremessa barris mais longe, desloca caminhões por maior distância. Lochte empurra rodas de caminhão de dois metros de altura, que chegam a pesar 400 quilos, e se exercita com correntes e cordas. Ao fazê-lo, desenvolve os músculos dorsais, fundamentais na natação. Trabalha as pernas, lombares, deltoides e tríceps. Por esse motivo, quando seus pés tocam a parede da piscina, nas viradas, a propulsão é suficiente para dispará-lo como se fosse estilingue.

"Isso me deu um salto de confiança", diz Lochte, que venceu ontem, os 400m medley com 4min05s18. Phelps ficou em quarto (4min09s28) e foi para o vestiário pensativo. "É muito frustrante. Espero me recuperar para terminar a Olimpíada melhor do que comecei."

Bronze em Pequim nos 200m e nos 400m medley, Locthe fez uma preparação voltada para lhe proporcionar um salto de dois degraus. Em Atenas, foi até melhor nos 200m medley, obtendo a prata. Seu progresso foi flagrante no Mundial de Xangai, no ano passado, em que obteve cinco ouros: 200m livre, 200m costas, 200m e 400m medley e 4x200m. Phelps, que andou relaxando nos treinos no último quatriênio, ficou para trás, com "apenas" quatro ouros: 100m e 200m costas e 4x100m medley. Unindo forças ao rival e amigo, também foi campeão do 4x200m.

Em seu dia de glória, Locthe, ao passar pela zona mista, teve que responder sobre Phelps. "Muitos acham que ele não é humano. Mas é apenas um nadador que trabalha duro. É apenas uma pessoa, e há outras."

Diferente de Phelps, 27 anos, que fala em se aposentar, Lochte, 28, pretende continuar. Reconhece que talvez já pudesse ter conquistado o ouro olímpico no medley antes. "Mudei minha dieta (antes comia até fast food). E sofri acidentes (andando de skate) fazendo coisas que não deveria fazer. Mas, se tivesse feito diferente, não teria amadurecido."

"É estranho não ter Michael no pódio. Mas, para mim, ele continua sendo um dos maiores. E sei que ele deu 110% de si", disse Lochte. A explicação para Phelps ter se esforçado tanto e não ter obtido resultado melhor, segundo Lochte, reside no fato de os 400m medley ser uma prova inglória. "É muito difícil. É necessário treinar muito."

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