Marcos Nagelstein/Estadão
Marcos Nagelstein/Estadão

Fernanda Oliveira se divide entre cuidar dos filhos e ir à sua 6ª Olimpíada

Velejadora conta com a ajuda de Ana Barbachan, sua parceira na Classe 470, para conciliar tarefas

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2019 | 04h30

O Brasil subiu no pódio nas três etapas da temporada da Copa do Mundo de Vela. Na classe 470 feminina, a medalhista olímpica Fernanda Oliveira e a parceira Ana Luiza Barbachan somam um ouro e um bronze. As duas conciliam as carreiras de velejadoras e as exigências da maternidade: Fernanda tem dois filhos, a Roberta, de cinco anos, e o Arthur, de dois.

Às vezes, os filhos vão junto para as competições. No ano passado, Fernanda teve de ir à noite para o hospital em Marselha, pois Arthur estava com dor de ouvido. Em 2015, Roberta cortou a testa após uma queda em Palma de Mallorca. Enquanto ela ia para o hospital fazer a sutura, Ana e o técnico montavam o barco. Chegou em cima da hora e foram a melhor equipe na água naquela dia do Troféu Princesa Sofia. Difícil mesmo é contornar o fuso horário. Fernanda já teve de competir depois de passar a noite em claro com as crianças. “Tenho sorte de contar com pessoas que me ajudam muito. A Ana é incansável, meu marido sempre esteve ao meu lado e tive anjos brancos, que são as babás que já me ajudaram a poder seguir velejando”, conta.

Em algumas provas, Ana chega antes. “Eu vou um dia antes dela para deixar tudo pronto para ela chegar e colocar o barco na água e velejar, que é a parte mais importante. Gosto muito dessa parte. Por outro lado, ela faz o contato com a confederação e procura os recursos para a campanha”, conta Barbachan, aos 29 anos. Ana acredita que os bons resultados da temporada são fruto desse entrosamento. “São dez anos de parceria. É a terceira campanha olímpica que estamos fazendo juntos. A gente se complementa”, explica.

Aos 38 anos, Fernanda vai tentar sua sexta Olimpíada seguida. Ela esteve em Sydney (2000), Atenas (2004), Pequim (2008), quando ganhou uma medalha de bronze ao lado de Isabel Swan, Londres (2012) e Rio de Janeiro (2016). Nesta última edição, ao lado de Ana Barbachan, ela ficou na oitava posição. “Eu me sinto privilegiada de poder trabalhar com uma coisa que amo fazer. Nunca achei que poderia chegar à tantas participações em Jogos Olímpicos”, diz a atleta.

Ela se recorda que cada ciclo olímpico foi marcado por uma histórica diferente. “Minha grande sacada para ter tido vida longa no esporte de alto rendimento foi procurar o equilíbrio e nunca ter deixado a vida pessoal de lado”, diz Fernanda, que também é formada em Administração de Empresas. “Não deixei de estudar, namorar, casar e ter meus filhos. Isso também sempre foi meu sonho: construir uma família”, afirma.

A pedido do Estado, Fernanda fez um resumo de sua carreira olímpica. Vale lembrar que a vela é a modalidade com o maior número de medalhas de ouro olímpicas na história do esporte do Brasil: sete. Ao todo, os velejadores brasileiros já conquistaram 18 medalhas em Jogos Olímpicos. “Cheguei muito nova à primeira participação em 2000. Com 19 anos era a atleta mais jovem da equipe de vela e também a mais jovem na minha classe. O objetivo era “estar nos Jogos”. Em 2000 e 2004, os ciclos foram muito amadores, de pouco investimento, e não tínhamos muita expectativa. Já em 2008, a experiência foi fantástica, um bronze com gosto de ouro. Em 2012, nós chegamos na última regata com chances de medalha, que sempre era o nosso objetivo”, recorda-se a velejadora.

“Já em 2016 foi duro, bem duro. Por já estar mais madura, o golpe não me derrubou e tive forças e vontade de seguir velejando. Fizemos todos campeonatos de 2016 entre as cinco do mundo, mas, na semana dos Jogos, nós tivemos algumas situações que custaram muito caro e a medalha ficou cada vez mais distante”, recorda-se. “Demorei mais de um ano para voltar ao Rio de Janeiro. Cada vez que pouso no (aeroporto) Santos Dumont, eu vejo a Baía de Guanabara e lembro de tudo que fizemos, do quanto nos preparamos e mesmo assim não deu. A vida às vezes é assim”, conforma-se.

O oitavo lugar nos Jogos do Rio deixou uma lição familiar importante para Roberta, que já ensaia seguir os movimentos da mãe nos barcos. “Minha filha perguntou porque eu estava chorando. Falei que tinha sido um dia muito difícil e que eu estava triste. Ela perguntou sobre a medalha e eu disse que provavelmente não ganharia, mas que a gente ia continuar tentando com todas as forças até o último dia. Falei que a gente não ia desistir”, diz a velejadora.

Um ano depois, na hora de servir uma refeição para a filha, o ovo começou a se abrir na hora de tirar da frigideira porque não tinha óleo. “Eu falei que não sabia se o ovo ia ficar tão bonito". A menina respondeu: “Mãe, não desiste. Lembra que você me falou no Rio de Janeiro que a gente nunca desiste?”

Aos 38 anos, Fernanda se tornou inspiração não só para os filhos, mas para outras atletas. No Dia da Mulher, sua colega Patrícia Freitas, que compete na classe RS-X, publicou um texto em seu blog sobre a importância da veterana para as novatas. “A Fernanda segue em campanha para Tóquio/2020 e desenrolou com um chute o tapete vermelho para nós, que viemos depois dela. Sempre de salto alto e bolsa quando não está na marina (em qualquer marina do mundo), cabelos escovados, unhas feitas e sorriso radiante. Tem uma filha e um filho lindos e faz de tudo para ser uma mãezona”, escreveu Patrícia. “Já disseram que ela está velha e fora de forma. Afinal de contas, ela é mãe né, coitada. Ela respondeu e segue respondendo com excelentes resultados dentro d’água”, completa o texto de agradecimento.

Na atual temporada, Fernanda Oliveira está se acostumando a deixar as crianças em casa com o marido. Para isso, tenta limitar viagens de até 12 dias. Na conquista da última medalha, ouro em Gênova, foram 11 dias sem os filhos. “No final de maio, nós vamos competir de novo na Europa. Vou sozinha de novo!”.

Tudo o que sabemos sobre:
velaFernanda OliveiraAna Barbachan

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.