Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Festa em Abuja teria sido cenário de acordo de propinas para escolha do Rio

MPs de Brasil e França apuram viagem de Nuzman e encontros em evento na Nigéria 

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2017 | 09h29

No centro da polêmica da compra de votos pela Rio-2016 estão supostos pagamentos a dirigentes africanos que teriam recebido propinas em troca de seu apoio para que o Brasil recebesse o evento. A suspeita é de que o acordo final tenha ocorrido em meio a festas e reuniões promovidas em Abuja, na Nigéria, três meses antes da votação em 2009.

Na investigação conduzida no Rio e em Paris, todos os indícios apontam para Lamine Diack, ex-presidente da Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF). Em 2009 quando o Rio de Janeiro venceu a corrida para sediar os Jogos de 2016, ele foi um dos primeiros que foi até o encontro da delegação brasileira para abraçar Pelé e outros membros do grupo quando o nome da cidade foi anunciada. Naquele mesmo dia, o ex-dirigente declararia que o Rio "mereceu ser campeão". 

Um dos membros do fracassado comitê de ética da entidade liderada por Diack era ainda Carlos Arthur Nuzman, presidente da Rio-2016.

Mas fontes envolvidas no processo confirmaram à reportagem que, no total, estão examinando diferentes dirigentes esportivos por diversos processos de seleção de sedes para eventos. A suspeita é de que Diack tenha centralizado os pagamentos e eventualmente distribuído parte da propina. 

De acordo com as investigações, Nuzman foi até a Nigéria em julho de 2009 e teria se reunido com as delegações africanas. 

O Estado apurou que, em Abuja, ocorreu a Assembleia Geral da Associação de Comitês Olímpicos da África, com 53 participantes. O evento chegou a ter a presença do ex-presidente nigeriano, Goodluck Jonathan, que realizou um discurso. 

Mas foi a presença de Pelé como cabo eleitoral da Rio-2016 que gerou tumulto, com um número enorme de dirigentes tentando fazer uma foto ao lado do brasileiro ou obter um autógrafo. A ofensiva de charme do Brasil teria pelo menos chamado a atenção e a presença do ex-jogador chegou a deixar preocupadas as demais candidaturas de Chicago, Madri e Tóquio, que também tinham se deslocado até a Nigéria. 

Longe da tietagem, porém, a suspeita é de que o encontro foi usado para acertar o pagamento por votos, o que ocorreria depois por meio de Diack.

Uma esperança dos investigadores é de que os documentos apreendidos em diferentes endereços deem as pistas dos receptores de propinas. Uma das fontes que participou da operação na terça-feira revelou que os suspeitos detidos ou levados para prestar depoimento "não estavam preparados" para o que ocorreu, o que significa que não teriam destruído provas ou escondido documentos. "A quantidade de documento é muito grande", confirmou um dos agentes.

Outro na mira da Justiça é o auditor da votação no COI que garantiu a vitória do Rio de Janeiro, o também africano Frankie Fredericks. Ele decidiu abandonar seus cargos dentro do COI horas antes que o Comitê de Ética da entidade revelasse ao público que ele seria suspenso.

De acordo com o Ministério Público francês, a família de Diack transferiu US$ 299 mil (R$ 931 mil) pela empresa Pamodzi para a empresa offshore Yemli Limited. O deposito ocorreu em 2 de outubro de 2009, dia da vitória do Rio para sediar os Jogos. Mas a empresa beneficiada tinha uma relação direta com Fredericks.

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