Festa surpreende equipe paraolímpica

A delegação paraolímpica brasileira foi recebida com festa na manhã desta sexta-feira no aeroporto de Guarulhos, na Grande São Paulo. Mais de cinqüenta pessoas aguardavam os atletas, munidos de cornetas e apitos, fazendo muito samba. O nadador Clodoaldo Francisco da Silva, que faturou seis de ouro e uma de prata em Atenas, era o mais aguardado. Ele teve de ser escoltado por um amigo no meio do empurra-empurra, enquanto carregava suas medalhas, dava autógrafos e conversava com os repórteres. "Calma, gente, não precisa empurrar!", pedia, assustado, sem perder o largo sorriso."Não esperava uma recepção dessa. Quando ligava para os meus pais e amigos, eles falavam que a repercussão aqui estava sendo grande. Mas os amigos sempre aumentam um pouco, fiquei desconfiado. Está sendo maravilhoso, o povo brasileiro é muito caloroso!", disse Clodoaldo, de 25 anos, que teve paralisia cerebral ao nascer e ficou sem os movimentos das pernas.Na saída da Grécia, Clodoaldo conta que foi parado três vezes na alfândega. "Revistaram as minhas malas com o excesso de peso delas (medalhas)", brincou o nadador.As medalhas de Clodoaldo foram o destaque da incrível performance do Brasil em Atenas, que representou o melhor resultado paraolímpico da história do País. Afinal, os atletas brasileiros conquistaram 14 de ouro, 12 de prata e 7 de bronze.Surpresa - Quem também ficou impressionada com a recepção foi Ádria Santos Rocha, que participou da sua quinta Paraolimpíada e trouxe três medalhas (ouro nos 100m e prata nos 200m e 400m). "Quando voltei de Sydney não houve tanta festa. Várias vezes voltei de viagens e ninguém perguntava nada", contou. Mas ela teme que a "euforia" acabe logo. "Me preocupo bastante com o nosso futuro, porque ainda falta apoio. Não somos coitadinhos! Gostaria que uma empresa se interessasse e me apoiasse. Não queria mais me preocupar com conta para pagar, com a escola da minha filha (Bárbara, de 14 anos) e de ter de pegar dois ônibus para treinar. Se tivesse um carro, por exemplo, seria tudo mais fácil. Mal tenho tempo de ver minha filha", pediu.Apesar da longa e vitoriosa carreira, Ádria promete mais. "Quero chegar bem aos Jogos de Pequim (2008) e até lá terei os Jogos Pan-Americanos do Rio", afirmou.Outros medalhistas em Atenas desembarcaram em São Paulo - uma parte da equipe seguiu direto para o Rio. Foi o caso do deficiente visual Odair dos Santos, que ganhou duas de prata (nos 1.500m e 5.000m) e uma de bronze (nos 800m). ?Isso aqui é um sonho?, admitiu. Quem também chegou no aeroporto de Guarulhos foi Suely Guimarães, ouro no lançamento de disco, e a nadadora Fabiana Sugimori, bicampeã paraolímpica dos 50 metros livre.Do aeroporto, o desfile no carro do Corpo de Bombeiros que seguiria até o prédio da Caixa na Avenida Paulista foi cancelado em razão do mau tempo (garoa e frio) e do protesto dos bancários. Os atletas seguiram em três ônibus escoltados pela polícia até o Palácio do Bandeirantes, onde foram condecorados pelo governador Geraldo Alckmin com a Medalha do Mérito Esportivo.Reivindicação - Estrelas da equipe, Clodoaldo e Ádria aproveitaram a ocasião para chamar a atenção das autoridades para o descaso com os deficientes físicos brasileiros, que são 26 milhões. Afinal, não faltaram políticos no desembarque da equipe no aeroporto, como o ministro do Esporte, Agnelo Queiroz, a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, e governador do Estado, Geraldo Alckmin."Sentimos falta de locais adaptados. Para chegar ao treino é uma aventura. Nunca sofri discriminação verbalmente. Para mim, a maior discriminação é não termos direito a lugares e adaptações nos ônibus", reclamou Clodoaldor. "Todo mundo sofre, fica complicado de se locomover", completou Ádria.

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