Festa única

Era tarde de junho de 2008, semanas antes da abertura dos Jogos de Pequim. Cheguei ao complexo do Estádio Nacional de Kingston, Jamaica, e segui em direção ao prédio da Associação Amadora de Atletismo. Encontrei a sala do senhor Glen Mills, bati na porta e fui recebido com um ar de desconfiança. Móveis velhos, computador da época em que eu cursava o primeiro grau, calor de sufocar e nada de aparelho de ar-condicionado.

Eduardo Maluf, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2012 | 03h02

Pedi a ele uma entrevista. Mr. Mills afirmou que tinha compromisso e me sugeriu que o acompanhasse em seu carro, um Toyota velho, para que pudéssemos conversar durante o trajeto. Esse senhor a que me refiro, gordinho, careca e de barba rala, é o técnico do maior atleta de todos os tempos: Usain Bolt, recordista dos 100 e 200 metros rasos.

Glen Mills é, para mim, o símbolo do esporte jamaicano. Não dispõe de recursos financeiros, conta com pouca tecnologia, mas tem de sobra determinação, disciplina e empenho. A Jamaica, nação pobre do Caribe, de apenas 3 milhões de habitantes, é exemplo de espírito olímpico.

Hoje, dia da cerimônia de abertura dos Jogos de Londres, o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) projeta 15 medalhas - três ou quatro de ouro, quem sabe? Desempenho parecido com o de Pequim-2008, quando o Brasil terminou na 23.ª colocação geral, 10 posições atrás dos jamaicanos, que obtiveram o dobro de primeiros lugares.

Temos muito mais atletas, mais dirigentes, mais treinadores e mais dinheiro. Por que somos superados pela Jamaica? Joaquim Cruz, campeão olímpico em Los Angeles-1984, resume bem o que ocorre por aqui. Falta, sobretudo, entender a importância do esporte. Muitas vezes os recursos financeiros não chegam ao destino final. E somos imediatistas demais, não aceitamos resultados no longo prazo.

Felizmente, as coisas começaram a mudar nos últimos anos. Os políticos deixaram (ou foram obrigados a deixar) um pouco de lado a mentalidade arcaica para perceber que o esporte pode ajudar no desempenho do jovem na escola, tirar crianças da rua, melhorar a saúde das pessoas.

O investimento tem retorno certo. "Estudo da ONU nos Estados Unidos, em 2004, mostrou que, para cada dólar aplicado em atividade física na infância, o governo tem retorno de 3 ou 4 dólares", diz insistentemente Joaquim Cruz sempre que fala sobre o tema.

A demora na mobilização por parte dos dirigentes e governantes brasileiros não permitirá ao País desempenho muito melhor nem em 2016, no Rio, aposta o campeão. Possivelmente em 2020, com um pouco de sorte. Não temos, de fato, motivos para sonhar com evolução tão grande em quatro anos. No atletismo, por exemplo, as esperanças de medalha se concentram em duas veteranas: Maurren Maggi, no salto em distância, e Fabiana Murer, no salto com vara.

A Jamaica tem faculdade para treinadores de atletismo e pistas por todas as partes, sem luxo, mas com estrutura. Trabalha pensando no dia a dia, nas competições nacionais, não apenas nos Jogos de quatro em quatro anos, no pódio ou nas premiações. A renovação é frequente, nomes novos surgem a cada temporada. Mesmo com todas as limitações, colhe os frutos nas provas em que mais se dedica - as de velocidade.

Nós, brasileiros, não devemos e não podemos carregar grandes expectativas nas disputas em Londres - nem o COB espera grande coisa. Vamos ganhar medalha provavelmente no futebol, no vôlei, no iatismo, na natação com o Cielo, talvez no hipismo, no atletismo e no judô... Independentemente do resultado final, a alegria nos próximos 17 dias está garantida. Para mais de 90% de nossos atletas, muitos deles guerreiros anônimos, apenas competir já

vale ouro.

A Olimpíada, afinal, é a maior e mais completa festa do esporte.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.