Fiascos franceses

O fiasco dos "Azuis" , a vulgaridade, a indecência, a arrogância, a ira desses jogadores que conseguem a façanha de ser ao mesmo tempo nulos em campo e ter contas bilionárias nos bancos, é uma desonra para a França. No entanto, o drama que se verificou na África do Sul também tem seu lado positivo.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2010 | 00h00

Lado positivo? Como? Sim. Há oito dias, o país inteiro só tem olhos para as obscenidades desse bando de cretinos. Ninguém presta atenção num outro espetáculo, dado pela "nomenclatura" francesa, seus ministros, deputados, etc.

A cada manhã temos conhecimento de uma nova irregularidade. Exemplo: Christine Boutin, ex-ministra de Sarkozy. Uma ministra sem importância.

Muito escrupulosa, ela se especializou na defesa do puritanismo e na denúncia da imoralidades das sociedades modernas. Sarkozy acabou se afastando da ministra que, na verdade, era completamente nula.

Mas, como prêmio de consolação, o presidente confiou a Christine uma "missão", de estudar os efeitos da globalização. E, por esse trabalho imaginário, ela recebia 9.500 por mês, que Christine acrescentava à sua aposentadoria como ministra, perfazendo um total de 20.000 euros mensais. Para fazer nada. O fato foi revelado. Indignação. Christine se demitiu.

O secretário de Estado encarregado da "Grande Paris" do futuro, Christian Blanc, é um austero tecnocrata. Muito bom. Apreciamos homens virtuosos.

Mas ele tem um "pecado venial". Fuma. Semanalmente envia seu chofer para comprar charutos numa tabacaria chique. Christian Blanc fuma seus charutos, e muito. E está feliz. Charutos têm um charme louco. Sobretudo quando são pagos pelo ministério: 12.000 em charutos em 10 meses!

Em uma semana, três ou quatro escândalos envolvendo figuras importantes foram revelados. Não se trata de uma grande corrupção. Mas uma corrupção de "necessitados" do "pequeno assalariado". Nada de grandioso. Tudo feito nas sombras. Imoralidade de gente pequena, de miseráveis.

Mas o escândalo do dia é este: a França tem a mulher mais rica do mundo, Liliane Bettencourt, de 87 anos, proprietária da L"Oreal. A filha dessa senhora denunciou a mãe, porque ela fez uma doação de quase 1 bilhão para um fotógrafo talentoso, sedutor e homossexual, François-Marie Banier.

O que é, afinal, 1 bilhão para Liliane Bettencourt? Nada. Mas a filha acusou a mãe de dilapidar sua fortuna. Foi aberta, então uma investigação.

Esse inquérito revelou que Lilliane Bettencourt, que só acompanha seus negócios de longe, tomou algumas liberdades com o fisco. Por exemplo, esqueceu de declarar as contas mantidas na Suíça e também a posse de uma suntuosa ilha no oceano Índico, nas Ilhas Seychelles. A senhora é muito distraída.

O problema é que ela tinha uma assistente, que a aconselhava nas suas aplicações. Que era nada mais, nada menos, a esposa do ministro do Orçamento, Eric Woerth, célebre pela severidade com que trata os bilionários que vão para o estrangeiro para fugir do fisco.

Legalmente, a senhora Woerth não cometeu nenhum desvio. Além do que, por coincidência, pouco antes dos fatos virem a público, ela decidiu abandonar seu humilde "emprego", em "razão de desacordos pessoais". O que foi uma boa ideia! TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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