Jon Super/AP
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Fifa abre guerra contra empresários

Entidade anuncia a intenção de criar um sistema informatizado, substituindo o trabalho dos agentes, que prometem ir à Justiça para barrar a iniciativa

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2013 | 02h05

GENEBRA - Os dias podem estar contados para uma categoria que, nas últimas décadas, enriqueceu vendendo e comprando jogadores de futebol. A Fifa abriu uma guerra contra os empresários de atletas e anunciou que está trabalhando para criar um sistema informatizado que, em um futuro próximo, pode fazer grande parte do trabalho desses agentes. Na Europa, empresários já alertaram que, se a Fifa decidir ir adiante com a ideia, eles irão à Justiça contra a entidade.

Levantamento feito pela Fifa revelou que em 2012 28% de todo o dinheiro movimentado nas 11,5 mil transferências de jogadores acabaram nas mãos dos empresários. O volume chega a R$ 1,1 bilhão na Europa. Só na Inglaterra, eles coletaram mais de R$ 240 milhões. O Manchester City, atual campeão inglês, admitiu que pagou mais de R$ 30 milhões a intermediários nos últimos dois anos.

O plano da Fifa é criar o GPX, sigla para designar o que ela chama de Sistema de Transferência Global de Jogadores, um serviço sigiloso de dados a que apenas os clubes teriam acesso. Nele, seriam colocadas várias informações sobre todos os jogadores do mundo. Assim, um clube poderia ficar sabendo quando termina o contrato de um atleta e qual é o valor da multa rescisória, entre outros detalhes.

Os clubes poderiam ainda usar o sistema para anunciar os jogadores que estão dispostos a vender e aqueles que gostariam de contratar. "Seria uma espécie de Ebay de jogadores", explicou ao Estado um dos responsáveis pela elaboração do novo sistema, em referência a uma das maiores redes de comércio on-line do mundo.

Para a Fifa, o mecanismo vai "revolucionar" a forma pela qual jogadores são comprados e vendidos e, na prática, tornará o empresário um elemento secundário no futebol. "O sistema vai reduzir de forma drástica a dependência dos clubes de intermediários", declarou a Fifa.

O anúncio da entidade, como era de se esperar, deu início a uma guerra. Empresários europeus já deixaram claro que não vão aceitar nem sequer que o sistema seja criado. Mel Stein, ex-representante do inglês Paul Gascoigne e hoje presidente da Associação de Empresários de Futebol, alertou que o sistema concebido pela Fifa "não tem como ser adotado" e, além disso, é ilegal.

"Os clubes são, em grande parte, administrados por pessoas que nem sempre são do meio do esporte", comentou Stein, que representa 340 empresários. "Eles não conhecem o mercado dos jogadores. Quem conhece são os empresários."

"Imagine todos os atores envolvidos em uma transferência. Isso inclui o técnico do clube que quer vender, aquele que quer comprar, o dono do clube, os representantes do jogador e outros", apontou. "O que o empresário faz é trazer todas essas pessoas para a mesma mesa. Em muitos casos, a forma mais barata de fechar um acordo é por meio de um empresário."

Segundo ele, os empresários europeus vão lutar com unhas e dentes contra o novo sistema. "Haverá uma ação legal se a Fifa decidir ir adiante com a ideia."

REVOLUÇÃO

Em Zurique, a Fifa garante que o projeto não será abandonado e espera que comece a funcionar nos próximos meses. "O sistema vai revolucionar o sistema nacional e o internacional de transferências", declarou Jacques Anouma, membro do Comitê Executivo da Fifa.

O que a entidade evita comentar é que o sistema de empresários foi oficializado pela própria Fifa há anos, criando a categoria de "agentes oficiais". Para ser um representante credenciado, o empresário precisa passar por um exame escrito. Mas, entre os vários escândalos que atingiram a entidade nos últimos anos, um deles diz respeito ao comércio de resultados das provas, facilitando a vida daqueles que querem ser "representantes oficiais". A Fifa deixou de licenciar agentes em 2001. Atualmente, eles são licenciados diretamente pelas federações nacionais.

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