Fifa ameaça São Paulo com 'papel menor'

Após perder Copa das Confederações e centro de imprensa, cidade corre risco de só ter jogos da 1.ª fase ou até de exclusão

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2011 | 00h00

São Paulo está seriamente ameaçado de ter participação secundária na Copa de 2014 e pode até ficar fora do Mundial, por conta da indefinição sobre o estádio de Itaquera.

O risco ficou evidente ontem, quando Fifa e CBF retiraram oficialmente a cidade da Copa das Confederações de 2103 e anunciaram que o Centro Internacional de Transmissão (IBC) ficará no Rio. Horas depois, a reação: Corinthians e a construtora Odebrecht anunciaram que as obras da arena do clube começam segunda-feira.

Na Suíça, a cidade sofreu um duro golpe na reunião do Conselho de Administração do COL (Comitê Organizador Local) e da Fifa. Além de tirar a cidade da Copa das Confederações e escolher o Rio para sede do IBC, chegaram a uma conclusão alarmante: se em poucas semanas não houver uma garantia financeira para o estádio do Corinthians, São Paulo ficará apenas com jogos menores da primeira fase da Copa. E a exclusão não está descartada.

Para a Fifa, São Paulo tem na prática mais quatro ou cinco semanas para fechar o financiamento do estádio - ainda não resolvido -, começar as obras e provar que tem como concluí-las em tempo. No início de julho, será anunciada a decisão.

Dentro da entidade, há quem comece a reconhecer que ter excluído o Morumbi, sem uma alternativa real em mãos, pode ter sido fatal para a cidade. Na época, a decisão foi tomada por Teixeira. O estádio do São Paulo foi retirado da Copa sob o argumento de que não tinha garantias financeiras para as obras de renovação. O projeto de Pirituba naufragou e Itaquera sofre para encontrar quem banque o custo de R$ 1 bilhão, de acordo com a estimativa mais atual.

A exclusão de São Paulo da Copa das Confederações havia sido antecipada com exclusividade pelo Estado. Itaquera não estará pronto e a não faria sentido usar, no evento teste, um outro estádio na cidade que não fosse o de 2014. Natal também foi retirada, pelo mesmo motivo.

Calendário apertado. Mas o problema seria bem mais profundo. A Fifa anunciará em julho o calendário definitivo das partidas, os locais de cada grupo e a abertura, semifinais e final da Copa. Brasília tem grandes chances de ter tanto a Copa das Confederações como a abertura do Mundial, como revelou o Estado.

O secretário-geral Jerome Valcke tem dito que São Paulo terá de trabalhar muito para reverter essa situação. Ele argumenta que a Fifa não quer correr riscos, como ocorreu na África do Sul.

Na entidade, comenta-se até que o estádio em Itaquera poderia ter capacidade para 48 mil pessoas e São Paulo receberia apenas jogos da primeira fase, como ocorreu em 2010 com Rustemburgo, mantido na programação do Mundial sul-africano apenas por questão política.

Na Fifa também há quem admita que decisões políticas estão tendo o mesmo peso que questões técnicas, o que vem fazendo a Fifa e a CBF entrarem em contradições. No comunicado emitido ontem, a Fifa explica que excluiu São Paulo da Copa das Confederações porque não terá estádio pronto até março de 2013. Valcke, há apenas duas semanas, havia dito que o prazo era dezembro de 2012.

A mudança de prazo teria sido uma forma para acomodar o Maracanã. Segundo declarou o prefeito do Rio, Eduardo Paes, ao Estado há apenas uma semanas, o estádio da final não ficará pronto antes de 2013. A Fifa, então, mudou seus prazos.

Negociação. Ontem, em Zurique, Teixeira e a Fifa também decidiram dar o centro de imprensa para o Rio de Janeiro, consolidando a cidade como a base de operações da Copa e dando outro golpe nas pretensões paulistas. O IBC será no Riocentro e, segundo a entidade, num processo "altamente competitivo"". Brasília também concorria.

O Estado, porém, obteve confirmações de que não se tratou de concorrência, e sim de negociação.

"O Rio de Janeiro foi escolhido por diversas razões, incluindo a qualidade da infraestrutura, a diversidade de acomodações e atividades disponíveis na cidade, bem como pelo desejo manifestado com ênfase para fornecer todo apoio possível ao IBC e seus usuários"", indicou a Fifa em comunicado. "Posso afirmar que foi uma decisão difícil"", afirmou Valcke.

O centro de imprensa é um dos pontos nevrálgicos da organização do Mundial, com tevês de todos os países e estrutura para 13 mil pessoas. "O IBC será um dos centros de informações mais avançados do mundo durante os meses de junho e julho de 2014"", explicou Valcke, que presidiu a reunião juntamente com Teixeira.

Para a Fifa, IBC no Rio significa que a cidade ganha um legado em termos de infraestrutura e telecomunicações de ponta para ser usado em outros eventos.

A decisão mantém acordo político fechado em 2007, entre José Serra (então prefeito de São Paulo), a CBF e Eduardo Paes (então secretário de Esporte do Rio e atual prefeito). Pelo acordo, São Paulo ficaria com o congresso da Fifa e com a abertura da Copa, enquanto o Rio ficaria com o centro de imprensa e com a final. Na Fifa, a estimativa é de que o Rio fez sua parte. Mas São Paulo não.

Sobre os demais estádios no País, a Fifa estima que estão em um "rumo certo"".

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