Fifa e seus homens: um mundo obscuro

Maioria dos integrantes do Comitê Executivo, posto em dúvida após recentes denúncias, tem ou teve problemas com a Justiça

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

Eles controlam o esporte mais popular do mundo, com 200 milhões de adeptos, são recebidos como chefes de estado por príncipes, presidentes eleitos democraticamente e ditadores. Estão sentados sobre recursos de mais de US$ 1 bilhão (R$ 1,7 bilhão), superior ao PIB de pelo menos 20 países. São os 24 integrantes do polêmico e poderoso Comitê Executivo da Fifa, que tem o controle sobre o futebol. São xeques, ex-jogadores, além de políticos e cartolas que nunca calçaram chuteiras. Em comum, a habilidade de se manter no poder e o fato de colecionarem escândalos.

Nos últimos dias, dois deles foram afastados por terem sido pegos em gravações secretas vendendo seus votos para a escolha da sede de Copas: o vice-presidente da Fifa, Reymald Temarii e o nigeriano Amos Adamu, banido do futebol em seu próprio país, considerado um dos mais corruptos do mundo.

O Comitê é formado por 24 pessoas que, teoricamente, trabalham pelo "bem do futebol, pelo bem do mundo". Elas são escolhidas por motivos diversos e critérios frágeis. Recebem por ano cerca de 150 mil (R$ 370 mil) apenas para fazer parte desse grupo. São os responsáveis por votar leis, promover mudanças no futebol e, acima de tudo, escolher as sedes das Copas.

A revelação desta semana fez explodir o maior escândalo da história recente da Fifa. Aliás, a maioria de seus integrantes já teve o nome envolvido em histórias nebulosas. Uma das crises mais recentes atingiu Vitaly Mutko, membro do Comitê e ministro dos Esportes da Rússia. Há dois meses, o Tribunal de Contas da Rússia acusou o ministro de uso impróprio de recursos públicos - US$ 200 milhões. Durante a Olimpíada de Inverno de Vancouver, teria usado o dinheiro para a preparação de sua seleção e sua viagem. Só seu quarto de hotel custou mais de US$ 1,4 mil por noite, quando seu limite de gastos era de US$ 120,00. Tomou 97 cafés da manhã em 20 dias, algo como cinco por dia e com custo de US$ 4,7 mil. Pressionado a pedir demissão, rejeitou sair e ainda espetou: "Um esquiador não vai andar mais rápido se eu for demitido."

Política? A Fifa insiste que não quer envolvimento político no futebol. Mas tem pelo menos dois políticos em sua cúpula. Um é Mutko. Outro é o mítico Jack Warner, poderoso cartola da América Central e hoje ministro do Transporte de Trinidad e Tobago. Uma auditoria feita pela Ernst & Young concluiu que ele teria lucrado US$ 1 milhão revendendo ingressos para a Copa de 2006. Mas foi só quando o documento vazou à imprensa que a Fifa agir. Não o expulsou, mas pediu que repassasse o valor. Até hoje a entidade não confirma se recebeu o dinheiro ou não.

Nos últimos anos, a Fifa tem adotado a estratégia de chamar auditores externos para mostrar que é mais transparente. Mas quem hoje ocupa o cargo "independente" controlando as contas é Franco Carraro, ex-ministro italiano e ex-prefeito de Roma. Carraro presidiu o futebol italiano até 2006, quando foi expulso diante das revelações de que poderia ter escondido o esquema de pagamento de propinas pela Juventus para garantir seus títulos. Ele também foi pego em uma gravação em conversa com Paolo Bergamo, ex-chefe da arbitragem da Itália. Na conversa, pede que a Lazio seja ajudada para não ser rebaixada.

Foi punido na Itália, mas ganhou o posto de auditor externo das contas da Fifa. Pior. Um dos chefes da divisão financeira da Fifa é simplesmente da Associação de Futebol das Ilhas Cayman, famoso paraíso fiscal. Nos rankings da Fifa, a seleção nacional aparece na 186.ª posição, uma das últimas. Mas, na estrutura de poder da entidade, ocupa um lugar de honra nas finanças.

As polêmicas vêm mesmo da cúpula. O presidente da Fifa, Joseph Blatter, foi acusado criminalmente por integrantes do Comitê Executivo da entidade pela compra de votos em sua eleição em 1998. Em 2001, foi acusado por seu braço-direito, Michel Zen-Reffinen, de ter levado a Fifa à beira da falência. Após sua eleição em 2002, todos os casos contra ele foram retirados. Seu salário é mantido em total sigilo, apesar de as contas da Fifa serem publicadas anualmente.

O número 2 da Fifa, Jérome Valcke, também já viveu tempos difíceis. Ele era o diretor de Marketing da Fifa quando a Mastercard abriu processo contra a entidade por rompimento de contrato. A Justiça americana condenou a Fifa e indicou que Valcke mentiu perante o tribunal. A Fifa pagou multa de US$ 90 milhões para a Mastercard. Já Valcke, que todos os dias chega com sua Ferrari à entidade, foi promovido ao posto de secretário-geral.

Vários outros integrantes do Comitê também conhecem a experiência de passar por escândalos. Mohamed Bin Hammam, do Catar, está sendo investigado pelo Comitê de Ética por ter feito um acordo ilegal com o espanhol Angel Maria Villar para a troca de votos na escolha da Copa de 2018 e 2022. Villar é um dos vice-presidentes da Fifa e presidente da Federação Espanhola.

A falência da ISL (International Sports License), empresa que negociava com TVs os direitos de transmissão da Copa, revelou ainda o pagamento de propinas ao membro do Comitê Executivo Nicolas Leoz para garantir contratos. Um acordo foi feito e Leoz continua fazendo parte do Comitê Executivo da Fifa e presidente da Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol).

Nesta semana, Blatter deu demonstrações de que o recente escândalo não deve mudar nada na entidade. Apareceu diante de mais de 80 jornalistas, indignado com as acusações de que a Fifa é corrupta. "Não consigo entender como isso pode ser dito." Em 2011, o suíço concorre à reeleição e explica: "Não terminei ainda minha missão." Blatter trabalha na Fifa há 35 anos.

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