Fifa estuda pôr fim a empates e prorrogação

Decepcionada com o baixo número de gols e o nível técnico ruim da Copa da África, entidade fala em mudanças

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2010 | 00h00

A Fifa reconhece a qualidade desastrosa do futebol jogado na África do Sul e prepara uma reforma da Copa do Mundo para salvá-la da monotonia. Diante da segunda pior média de gols na história das Copas e da qualidade baixa do futebol apresentado, a Fifa anunciou que vai mudar o torneio que será disputado no Brasil em 2014. A ideia inicial é de que nenhuma partida termine empatada, o que significaria a introdução de cobranças de pênaltis já na primeira fase, obrigando os times a atacar. A prorrogação pode acabar e a Fifa ainda estuda a adoção da morte súbita ou gol de ouro. Tudo para elevar o número de gols e tornar o evento mais emocionante.

Após a Copa de 2010, patrocinadores informaram à Fifa de que não poderão investir cada vez mais na promoção do evento se um formato mais ''dinâmico'' não for encontrado para a competição. Na realidade, a Copa é um torneio de um mês e que, para manter a atenção de milhões de pessoas nos cinco continentes, a forma de disputa teria de ser repensada. Nada menos de 10% dos jogos na África do Sul terminaram sem gols, um recorde. Ontem, a Fifa decidiu criar um grupo de trabalho formado por jogadores, técnicos, árbitros e médicos para acabar com a monotonia da Copa do Mundo. Para fontes de dentro da entidade, essa decisão é um reconhecimento explícito de que, da maneira como está, o futebol não pode continuar.

Apesar de ser o evento mais assistido do planeta, a falta de ação em campo e o baixo número de gols deixaram a entidade preocupada. A Copa viu treinadores mandando suas equipes a campo com a ordem de não perder e torcer por uma combinação de resultados a fim de passar à próxima fase.

Para completar, o desastre da arbitragem em 2010 também obrigará a Fifa a pensar na profissionalização dos juizes que atuam no Mundial.

"Queremos uma Copa do Mundo mais atrativa", afirmou Joseph Blatter, presidente da Fifa. "Na primeira fase, ninguém quer perder. Na Copa deste ano, tivemos seis partidas que terminaram sem gols. Temos que rever isso", disse. O Mundial da África do Sul só não foi pior em média de gols que o da Itália, em 1990. Este ano, 19.ª edição da Copa, em 64 jogos foram marcados 145 gols, média de 2,26. Na Itália, em 52 jogos foram 115 gols, média de 2,21.

Na Itália. O cartola lembra que depois da desastre da Copa de 1990, quando o futebol teria atingido seu ponto mais baixo, a Fifa criou um grupo para reformar o jogo e tentar voltar a dar qualidade ao futebol.

"Em 1990, o futebol não estava em seu melhor nível e decidimos criar um grupo para preparar uma nova fase de jogadores", explicou Blatter. "Vinte anos depois, estamos tomando novas decisões", afirmou.

Antes, claro, de 2014, a Fifa deve anunciar as novas regras. Mas Blatter já adiantou que sua meta é de que não haja mais jogos empatados. O que ainda não se sabe é se a prorrogação seria adotada desde o primeiro jogo ou se a partida iria direta aos pênaltis.

Prorrogação. Blatter admitiu que uma das opções é a de acabar com a prorrogação. "Queremos discutir a prorrogação", disse. "Com frequência, as equipes procuravam não tomar gols durante a prorrogação. Passar diretamente à disputa nos pênaltis e adotar de novo o gol de ouro (morte súbita) são as opções. Vamos ver o que será decidido", afirmou Blatter.

Mas nem todos na Fifa estão de acordo com o fim da prorrogação. No relatório técnico apresentado pelo entidade sobre a Copa, ficou claro que alguns dos momentos mais emocionantes do torneio ocorreram na prorrogação. A própria Espanha sagrou-se campeã no tempo extra.

Em termos da arbitragem, a Fifa quer garantias de que os erros sejam mínimos. Para isso, a ordem é a de já preparar um grupo que seria conduzido até 2014. "Queremos a profissionalização da arbitragem", defendeu Blatter. Uma das medidas poderá ser o estabelecimento de um assistente atrás de cada gol.

Ingressos. Outra reforma que já está adiantada pela Fifa é no controle da comercialização dos ingressos da Copa. Depois do fracasso na venda de entradas pela empresa Match - do sobrinho de Blatter - para o Mundial de 2010, a Fifa ontem optou por retomar o controle sobre os ingressos e criar sua própria empresa responsável pelas vendas.

Jérome Valcke, secretário-geral da Fifa, já afirmou que sua meta é abrir postos de vendas de entradas em várias partes do mundo e em várias cidades do Brasil. O objetivo é evitar o que ocorreu na África do Sul, quando a Fifa teve muita dificuldade para lotar os estádios e chegou a distribuir entradas gratuitamente para crianças carentes.

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