Fifa promete ajudar CBF a mudar MP

Entidade reage à medida provisória de refinanciamento por considerar que há interferência do governo no futebol e se diz pronta para agir se for necessário

JAMIL CHADE / ZURIQUE , O Estado de S.Paulo

21 Março 2015 | 02h05

A CBF ganhou o apoio da Fifa para pressionar o governo brasileiro a modificar a medida provisória do refinanciamento fiscal da dívida dos clubes. Ontem, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, atacou a interferência dos governos no futebol e o presidente eleito da CBF, Marco Polo del Nero, deixou claro que um lobby será feito no Congresso para mudar a lei.

Os principais pontos de contestação são os artigos que limitam mandatos de dirigentes de clubes, federações e da própria CBF a quatro anos com direito a apenas uma reeleição - considerado inconstitucional pelos cartolas -, o que limita os investimentos dos clubes no futebol profissional a 70% da receita e a obrigação de investimento no futebol feminino.

"Deixem o esporte em paz'', declarou Blatter, que ontem fez passar resolução no Comitê Executivo da Fifa para insistir na "autonomia do futebol''. Questionado pelo Estado, ele disse que a Fifa estaria disposta a investigar o caso do Brasil se a CBF pedir a intervenção da entidade por conta da MP do governo brasileiro sobre os clubes.

Na quinta-feira, a presidente Dilma Rousseff assinou a Medida Provisória 671, que institui o Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro e dispõe sobre a gestão temerária no âmbito das entidades desportivas profissionais.

A MP permite o refinanciamento das dívidas com a União em até 240 meses. Mas, como contrapartida, os clubes terão de cumprir regras de governança e de responsabilidade fiscal e trabalhista. "Interferência é quando confederações são afetadas por decisões do governo. Se a CBF pedir ajuda e falar que está com problemas, nós atuaremos, estudaremos e tomaremos uma decisão'', disse Blatter.

A CBF já deixou claro que é contra a limitação de mandatos e, ontem, Del Nero confirmou que a versão final da lei não deve ficar como a MP previa. "Isso (a mudança) vai ocorrer no Congresso'', apostou. Ele, porém, evitou comentar as declarações de Blatter alertando que o governo não pode interferir no futebol. "Deixe eu ler primeiro a MP e depois vou falar.''

Blatter, ainda que não tenha citado diretamente o governo brasileiro, deixou claro que está disposto a atuar. "Se a CBF disser que existe uma interferência, vamos agir'', alertou.

O cartola lembrou que existem resoluções do COI e até da ONU que asseguram que os esportes são "autônomos''. E ainda avisou: as regras da Fifa proíbem intervenções, sob o risco de um país ser suspenso de competições. "Constatamos cada vez mais intervenções de governos no esporte'', alertou o cartola ao final da reunião de sua cúpula ontem em Zurique. "Temos casos na África, Europa e na América do Sul.'' Não citou o nome de nenhum país.

Blatter deixou claro que não vai aturar intervenções. "Hoje, tivemos uma resolução para dizer: 'Pare a interferência política no nosso esporte'.''

Em 2014, a Fifa suspendeu a Nigéria de suas competições diante da decisão da Justiça de decretar a prisão dos cartolas do país por corrupção.

Polícia. O presidente da Fifa aproveitou ontem para criticar a Justiça e a polícia do Rio de Janeiro. Segundo ele, o Comitê de Ética da Fifa não encontrou nada de errado com Ray Whelan, executivo da Match, empresa sócia da Fifa que vende pacotes para a Copa.

Whelan foi acusado pela polícia do Rio de fazer parte de um esquema de venda ilegal de ingressos e foi preso durante a Copa. "Ele foi para a prisão por nada'', atacou Blatter. No Brasil, o caso também foi arquivado.

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