Fifa resolve ser dura com Luis Suárez

Reincidência do atacante - que já mordeu outros jogadores - foi levada em conta pela entidade, que quis dar exemplo

JAMIL CHADE, RONALD LINCOLN JR., ENVIADO ESPECIAL / RIO, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2014 | 02h02

O atacante uruguaio Luis Suárez recebeu ontem da Fifa a maior punição por agressão para um jogador na história das Copas, por ter mordido, na partida de terça-feira, o zagueiro italiano Giorgio Chiellini. O jogador do Liverpool foi suspenso por nove jogos com a seleção e afastado de qualquer atividade ligada ao futebol por quatro meses - ele não pode assistir a um jogo ou treinar com o time, por exemplo. Suárez também terá de pagar uma multa de US$ 112 mil.

Suárez deixou ontem a delegação uruguaia, que viajou para o Rio, onde enfrenta amanhã a Colômbia pelas oitavas de final. "Tiraram Luis Suárez da Copa. Só espero que não tirem o Uruguai do Mundial", declarou o presidente da Federação Uruguaia de Futebol, Wilmar Valdez. Suárez teve sua credencial confiscada pela Fifa. Ele não poderia nem visitar os companheiros.

Ao Estado, o cartola disse que ações como a de Neymar, que deu uma cotovelada na abertura da Copa, nem mesmo foram investigadas. "Não temos esperança. Vamos apelar e passar pelos processos normais. Mas ele já está fora da Copa", declarou Valdez. Um advogado da delegação uruguaia estava escalado para viajar à Europa para cuidar do recurso, mas como entrara no Brasil apenas com a identidade não tinha passaporte para cumprir a missão - o governo uruguaio tentava fazer um novo documento para ele.

A defesa do uruguaio, que alegou que não havia provas da mordida, perdeu força pelo histórico do jogador - condenado pela terceira vez por uma dentada em um adversário. Na Holanda, ele pegou sete jogos de suspensão. Na Inglaterra, em abril do ano passado, foi suspenso com dez jogos (mais informações na página E3).

Valdez evitou seguir a corrente que vê na punição uma estratégia para beneficiar o Brasil, que poderia jogar contra Suárez nas quartas de final. "Não foi só Neymar, mas também outros jogadores, como Sakho, da França, até mais violentos", reforçou.

O presidente eleito da CBF, Marco Polo Del Nero, insistiu que não se pode comparar a mordida à cotovelada de Neymar. "São duas coisas totalmente diferentes." Rafael Salgueiro, membro do Comitê Executivo da Fifa, também rejeitou a comparação. "Uma coisa é uma cotovelada, que é um lance de jogo e até uma reação espontânea. Outra coisa é uma mordida", declarou o dirigente guatemalteco.

Conveniente. Dirigentes da Fifa confirmaram ao Estado que usaram o caso de Suárez para dar "um exemplo". A decisão só foi tomada depois que o presidente da Fifa, Joseph Blatter, voltou de Manaus ao Rio, no início da madrugada. A ordem era clara: mostrar que a Fifa não tolera atos de violência no futebol, num esforço para recuperar parte da credibilidade afetada por casos de corrupção - o maior é a suspeita de compra de votos para Copa do Catar, em 2022.

A punição a Suárez é três vezes superior à sofrida pelo francês Zinedine Zidane pela cabeçada que deu na final da Copa de 2006. Só Diego Maradona ganhou uma punição maior, de 18 meses, mas por doping, e não de uma ação em campo. O maior número de jogos de suspensão havia sido oito, para o lateral Mauro Tassotti, em 1994, pela cotovelada que quebrou o nariz do espanhol Luis Enrique. "Se fôssemos leves, a Fifa estaria morta", declarou Rafael Salguero, membro do Comitê Executivo da entidade. Ele confirmou: a Fifa usou Suárez para dar mandar um recado.

O Estado viu a cópia da decisão, que foge a qualquer padrão adotado por Uefa, pela Fifa e pela Corte Arbitral dos Esportes. Salguero admite que, agora, a Fifa não terá como voltar a ser branda. "Terá de ser dura com todos. Teremos de punir qualquer um, até Messi", disse.

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