Filho de João do Pulo escreve sua história

Decidido pelo salto triplo como o pai, que foi tricampeão mundial, Emmanuel, o Pulinho, treina duro no Rio de Janeiro e faz sua estreia internacional

GONÇALO JUNIOR , O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2013 | 02h06

Pulinho é a cara do pai, João do Pulo. Herdou o nariz esborrachado, as pernas pra mais de metro, o corpo esguio e o cabelo pixaim arredondado. Existe, no entanto, um abismo entre os dois. Lacuna de 17,89m. Essa foi a marca que João do Pulo cravou no salto triplo nos Jogos Pan-Americanos da Cidade do México, em 1975, e que foi recorde mundial por uma década.

Aos 18 anos, Pulinho está pagando pra ver se o abismo é tudo isso mesmo. Está começando a carreira de atleta. Triplista, como o pai. O apelido virou marca registrada e o nome no RG, o pomposo Emmanuel Norberto Carrupt de Oliveira, ficou restrito às inscrições nas competições.

No mês passado, participou da primeira prova internacional. Um torneio de atletismo para jovens talentos em Illinois, nos Estados Unidos. Ele foi atleta convidado para adquirir experiência e participar de três provas: salto triplo, em distância e 100 metros rasos. "Essa é a minha vida."

Por algum tempo, Pulinho não ouviu o chamado do DNA. Com 1,90m e 78kg, passou por basquete, salto em altura e em distância. Desistiu. Foi difícil achar o salto triplo porque, na verdade, ele estava dentro de si. "O salto triplo está no meu sangue", diz, contando que um tio também é atleta. "Deixei a vida seguir. Não podia forçar nada", conta a mãe, dona Lili, ou Maria Aparecida Norberto Carrupt, dona de casa e excelente boleira (de bolos, não de bola).

Lili ainda chora porque Pulinho trocou Pindamonhangaba, terra natal da família, pelo Rio. Boa causa. Foi selecionado pelo projeto Powerade Team, parceria entre a Federação de Atletismo (Farj) e a Coca-Cola para garimpar talentos com um treino de alto nível. Desde janeiro, os atletas moram na sede da Farj e treinam na Escola Naval. Em julho, o holandês Gerard Lenting (quatro Olimpíadas no currículo) assumiu a coordenação técnica.

Pulinho ainda está no começo de sua carreira como atleta, buscando aumento da massa muscular, velocidade, agilidade, força, coordenação e flexibilidade. A evolução está sendo boa. Desde que entrou no programa, perdeu três quilos de gordura e ganhou outros três de massa. Avançou meio metro no salto em distância.

A direção do time prefere não revelar quanto está saltando. Não quer que aqueles 17,89m sejam um calvário para o menino. "Já conversei com o psicólogo da equipe e ele me disse para seguir em frente."

O nome famoso nas costas pode dar asas. A Weber, gigante do setor de argamassas, patrocina o garoto. "É uma grande aposta do atletismo brasileiro. É um patrocínio feito com o coração", diz Asier Amorena, diretor de marketing da empresa.

Símbolo. O pai de Pulinho foi ícone do esporte. Tricampeão mundial do salto triplo (1977, 78 e 81), ele ganhou dois bronzes olímpicos na prova e fechou um trio de medalhistas olímpicos brasileiros, ao lado de Adhemar Ferreira da Silva e Nelson Prudêncio.

Metaforicamente, a vida de João do Pulo imitou a prova que o consagrou: ora no alto, ora no chão. Em 1981, seu carro bateu em outro que vinha na contramão na Anhanguera. Um ano depois, ele teve de amputar a perna direita. Tinha 27 anos.

Ele caiu, mas se levantou. Foi deputado estadual em São Paulo em 1986 e reeleito em 1990 pelo PFL. Passou a lutar pelos direitos dos deficientes físicos. Na eleição em 1994, no entanto, ficou fora da Assembleia. "Ele não conseguiu se reerguer dessa queda", diz dona Lili.

Seus negócios - uma padaria e uma transportadora - faliram. Sobrevivia com a aposentadoria do Exército e chegou até a ser preso por não pagar pensão alimentícia à sua filha, de outro relacionamento. Deprimido, começou a beber.

Tentou nova parábola aos 42 anos: trocou a prótese e queria competir nas Paraolimpíadas de Sydney. Mas, em abril de 1999, foi internado com broncopneumonia. Na UTI, os médicos detectaram hepatite. Um dia depois de seu aniversário de 45 anos, morreu.

Pulinho viu pouco desses altos e baixos e tem mínimas lembranças do pai, que morreu quando ele tinha cinco anos. Pinda parou no enterro e construiu uma estátua em sua homenagem. Sua história causou tanta comoção no Brasil que inspirou o cantor João Bosco. Com versos sofridos, ele canta que "de dor o povo pulou para a frente". Com o Emmanuel Carrupt de Oliveira, é a história que dá um pulinho para a frente.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.