Fim do mundo

Há quem garanta que o mundo vai acabar em 2012. Como houve quem garantisse que ele acabaria em 2000, em todas as passagens do cometa Halley, no ano 1000 e num monte de outras datas cabalísticas através da história. Minha maior curiosidade no momento é saber para quando será marcada a próxima data do Apocalipse, tão logo a lorota do tal calendário Maia que acaba em 21 de dezembro de 2012 for desmoralizada pelos fatos.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2011 | 03h05

Nunca entendi bem os malucos que anunciam o fim do mundo. Para mim, é muito mais interessante anunciar que o mundo não vai acabar. Por que nesse caso, se eu estiver errado, não sobrará ninguém para rir da minha cara de profeta fracassado. Não, amigos, o mundo não vai acabar em 2012. Mas eu gostaria muito que algumas coisas que são o fim do mundo acabassem em 2012.

Por exemplo: é o fim do mundo a gente ver os clubes e a seleção brasileira praticando galhardamente aquilo que alguns colegas da imprensa chamam de Muricybol - como o Santos na final do Mundial Interclubes - e achando que estão abafando. Não aguento mais tanta preocupação com a defesa, tão pouco toque de bola, tantas faltas e tanta falta de criatividade. Onde foi parar o Santos do Dorival, aquele que fazia seis, levava três, mas dava espetáculo e, sim, conquistava títulos? Será que aquele Santos ofensivo e confiante não daria mais duro no Barcelona do que o time cauteloso e assustado que vimos em Yokohama? E a seleção? Até quando teremos de ter paciência com um time que há um ano e meio "está se arrumando" ? Não sou daqueles que acham que Dunga fez um lindo trabalho, mas que o time do gaúcho tinha ao menos uma filosofia de jogo, lá isso tinha. Posso conviver bem com uma filosofia diferente da minha, mas tenho pouca paciência para gente sem filosofia. Isso é o fim do mundo.

Também é o fim do mundo que o futebol brasileiro ainda não tenha um calendário ao menos com dois neurônios, que respeite as datas da Fifa sem deixar os clubes sem seus melhores jogadores em partidas oficiais.

Outro fim do mundo é constatar que os clubes de futebol, tão carentes de recursos como são, continuem aceitando em suas divisões de base jogadores cujos passes pertencem a empresários. Notem que eu nem falei na equipe profissional, apenas nas divisões de base. Da mesma forma é o fim do mundo que esses mesmos clubes quebrados paguem salários de centenas de milhares de reais a jogadores que, no exterior, nem tinham mais mercado. Fim do mundo maior ainda é constatar que a moda agora é pagar salários igualmente astronômicos a gerentes de futebol. Ora, se grandes e lucrativas corporações não pagam salários de centenas de milhares de reais aos seus executivos, como um clube pode pagar tanto por um gestor? É o fim do mundo.

São muitos fins do mundo que eu gostaria de ver chegando ao fim em 2012. Mas acima de tudo isso eu tenho um desejo especial: eu gostaria muito que, no próximo ano, a intensidade do espanto e da revolta dos brasileiros com a notícia de que a nossa seleção está no sexto lugar do ranking da Fifa fosse a mesma em relação ao fato de que somos o 84.º país no ranking de desenvolvimento humano da ONU.

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