Fizeram Neymar acreditar que é mito

Os últimos incidentes que tiveram Neymar como protagonista - a confusão em Fortaleza e o bate-boca com o técnico Dorival Júnior, ontem, na Vila Belmiro - são um prato cheio para aqueles que adoram fazer julgamentos, rotular pessoas e apontar mocinhos e bandidos. Em vez disso, convido você, leitor, torcedor ou não do Santos, a fazer algumas reflexões.

Wagner Vilaron, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2010 | 00h00

Sem dúvida, as palavras - e sobretudo o tom exaltado - do técnico do Atlético-GO, Renê Simões, adversário do Santos ontem, evidenciam que a situação, ao contrário do que a direção santista e os representantes do atleta tentarão dizer, é delicada. "Poucas vezes vi alguém tão mal educado. Se continuar assim, nós estamos criando um monstro no futebol brasileiro" foram algumas das frases de Renê a respeito do episódio.

Não se trata de uma questão de caráter dos envolvidos, mas parece, sim, um erro de estratégia da diretoria do Santos na promoção do jogador, sem dúvida um craque, um diferenciado.

Tanto o presidente do clube, Luis Alvaro Ribeiro, como os responsáveis pelo marketing alvinegro e pela condução da carreira do atacante não têm o menor pudor em dizer que o objetivo é fazer de Neymar um mito. Pergunto: Será para tanto? Não é exagero? Tá bom, inclua aí também uma parcela da mídia que adora oba-oba.

Oras bolas, não sou especialista em psicologia, mas meu senso de observação me faz achar óbvio que um jovem de 18 anos, que é tratado por seus superiores como um deus, sinta-se como tal no seu dia a dia.

E as consequências desse sentimento também são previsíveis. O sujeito não diferencia mais sua realidade profissional da pessoal. O cara não se sente apenas um jogador diferenciado, passa a se sentir um ser divino, superior. Daí para ignorar princípios de hierarquia é só questão de tempo.

E para aqueles que já estão com o argumento na ponta da língua - ahh, mas ele só tem 18 anos! - já digo logo: mais um motivo para que a estratégia seja revista. Neymar, como qualquer um de nós, passa por um período delicado da vida. Aquele no qual precisamos tomar decisões importantes sobre o rumo que daremos a nosso futuro sem, muitas vezes, estarmos preparados para isso.

Falo por mim. Quando tinha 18 anos, precisava definir qual faculdade fazer. Desde criança gostava de equipamentos eletrônicos. Bingo! Decidi prestar para Engenharia Eletrônica. Fiz um ano. Foi um saco, me arrependi e fui parar em Publicidade e Propaganda porque era mais fácil conseguir a transferência. A convicção era zero. Ainda bem que na terceira tentativa o Jornalismo me encontrou. Sim, sou diplomado com muito orgulho!

Mas voltando ao caso de Neymar, é notório que a rejeição dele cresce exponencialmente entre atletas e, agora, até mesmo com parte da torcida do Santos, que ontem gritou o nome de Dorival. É verdade que uma série de gols e atuações espetaculares podem transformar essa reflexão em algo inócuo. Mas espero que, desta vez, a razão prevaleça diante da miopia da paixão futebolística.

Cheiro ruim. Circulou nos últimos dias, no Parque São Jorge, a informação de que existe articulação política para que o presidente Andrés Sanchez dispute a reeleição, a fim de comandar o clube até o final da construção do estádio de Itaquera. Para isso, seria necessário alterar o estatuto, o que, para muitos, soa como golpe. Sou testemunha de que o novo estatuto sempre foi apontado pelo próprio Sanchez como um de seus principais feitos como presidente. Resta saber se o presidente corintiano ainda está comprometido com esse discurso.

Clichê. Essa história de que o jogo Fluminense x Corinthians foi uma decisão antecipado é conversa mole para boi dormir. Mas que o impacto do resultado na confiança e no embalo do time pode ser decisivo daqui para frente, ah, isso pode. Ainda mais com um jogo a menos.

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