Fla x Fla no terrão. E um sonho se realiza

Torcedores do rubro-negro da Guiné-Bissau jogam pela 1ª vez vestindo a camisa do time do coração

Mirella Domenich, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2011 | 00h00

Os jogadores do Flamengo da Tchada, o bairro da capital da Guiné-Bissau que se transformou num reduto de torcedores do time carioca, como o Estado mostrou na edição de ontem, podem comemorar agora o fato de vestirem a camisa oficial do rubro-negro numa partida de futebol. A "estreia dos sonhos"" ocorreu no final da tarde de ontem e os atletas se divertiram bastante durante uma hora - o jogo foi dividido em dois tempos de 30 minutos.

Como todos estavam loucos para suar a camisa nova, o elenco se dividiu em dois times: Flamengo Fair Play e Flamengo Levanta Peso. E ambos com a mesma camisa. "Não tem perigo de alguém se confundir e passar a bola para o adversário. Todo mundo aqui se conhece desde a infância e sabe bem quem está no seu time", disse o árbitro Zé do Galo, que apitou a partida também vestido com o "manto sagrado". Para se destacar em meio aos jogadores ele usou um boné branco.

O rachão foi disputado numa rua de terra batida do bairro, com pedras demarcando o tamanho dos gols - o Flamengo da Tchada só joga em campos, também de terra, quando disputa o campeonato de bairros de Bissau. Para animar os jogadores, um grupo batucava à beira do campo.

Na torcida, meninas assistiam em pé, lado a lado, posicionadas atrás do vão de esgoto ao ar livre que delimita um dos lados do campo. Vizinhos saíam das casas para acompanhar a partida.

Mas nem todo o bairro parou para acompanhar a pelada. Enquanto a bola rolava chiando no terrão, atrás de um dos gols cinco homens tentavam consertar um carro. Atrás do outro, um morador molhava o chão para baixar a poeira. E de repente uma mulher "invadiu" o campo e o atravessou lentamente equilibrando uma bacia na cabeça.

A partida continuou normalmente, mas sua atitude foi considerada um atrevimento pelos homens que viam o jogo, porque a presença da mulher em esportes tidos como masculinos não é bem aceita no país. Isso ficou claro na preliminar, numa partida disputada por crianças. Os adultos gritavam e incentivavam os meninos, mas as meninas tiveram de ir jogar em outro lugar.

No Fla x Fla, como foi chamado o jogo principal, o árbitro Zé do Galo fez o seu trabalho ciente de que aqui na Tchada a regra é clara: a falta só é marcada em casos extremos. O placar final apontou 2 a 1 para o Levanta Peso, mas isso era o que menos importava para os orgulhosos flamenguistas de Bissau. A felicidade deles por jogar com a camisa do Mengão sonhando que estão no Maracanã foi o melhor do dia.

O Flamengo transformou-se em paixão na Tchada graças ao carioca Ricardo Rodrigues. Há um ano no país como voluntário da ONU, ele conseguiu fazer os guineenses se apaixonarem por seu time de coração.

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