Fla x Flu redentor

Em meio às graves crises políticas, econômicas e morais dos anos 80 no Brasil, o grande Luís Fernando Veríssimo publicava, eventualmente, um pequeno poema em suas colunas. O título que ele atribuía à seção era "Poesia numa hora dessas?!". De fato, em meio à ditadura agonizante, à hiperinflação, à corrupção no volume máximo, quem seria capaz de se importar com algo singelo como a poesia? Mas o mestre jamais esmorecia e, por meio de suas mãos, mesmo enquanto o pau comia no país, pingos de lirismo eram derramados sobre as páginas cheias de gritantes manchetes dos jornais. A atividade de cronista esportivo por vezes me coloca em situação parecida. E isso ficou muito claro quando acompanhei a cobertura da apoteótica chegada de Ronaldinho Gaúcho ao Flamengo, enquanto o país inteiro chorava centenas e centenas de mortos e toda a devastação causada pelo maior desastre natural da nossa história.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2011 | 00h00

É claro que o Flamengo, e muito menos Ronaldinho, nada tem qualquer coisa a ver com as chuvas que devastaram a Região Serrana do Rio. Mas devo confessar que ver aquela festa toda, enxertada meio a fórceps numa das mais tristes edições da história do nosso jornalismo televisivo, trouxe-me à cabeça a pergunta fatal: futebol numa hora dessas?! E nesse estado de espírito, cá estou eu, com angustiante missão de ter que falar de futebol num momento em que a nação está de luto. Que caminho devo seguir? Falar das novas contratações dos clubes? Apontar os clubes favoritos para a temporada? Desviar o foco para o futebol europeu? Nada disso. Acho que posso e devo discutir o que o pode fazer o futebol, mesmo numa hora dessas.

Proponho um jogo. Não qualquer jogo. Proponho a realização de um dos maiores clássicos do mundo: o Fla x Flu. Um Fla x Flu em benefício das vítimas da tragédia. Imaginem só: de um lado, o Flamengo de Ronaldinho, Thiago Neves e vários remanescentes do time que foi campeão brasileiro em 2009; do outro, o Fluminense, atual campeão brasileiro, com craques como Fred, Emerson, Deco. Para completar, o clássico marcaria a estreia de Ronaldinho e a despedida de Washington.

Não seria difícil imaginar um público de 40 mil pessoas no Engenhão para ver um confronto tão cheio de história e atrativos. Com ingressos a R$ 30, arrecadaríamos R$ 1, 2 milhão para o fundo de resgate das cidades atingidas pelas enchentes. Se além de comprar ingressos as pessoas tivessem que trazer 2 kg de alimentos não perecíveis, teríamos nada menos do que 80 toneladas de alimentos para as famílias desabrigadas. Que tal se as televisões vendessem os direitos de transmissão do jogo para seus grandes anunciantes, ficando apenas com o valor suficiente para cobrir seus custos e repassassem o excedente para o fundo das enchentes? Seriam vários milhões adicionais. E se nos intervalos comerciais e nas vinhetas de divulgação do clássico fossem incluídas mensagens sobre contas bancárias para arrecadação de contribuições de todo o Brasil? Muitos e muitos milhões a mais. Sem falar numa operação de Teleton, com números telefônicos para novas arrecadações, que poderia ser montada. Acredito piamente que é possível arrecadar dezenas de milhões de reais com um Fla x Flu assim.

Luxemburgo e Muricy estão no meio da pré-temporada e isso atrapalharia a preparação de seus times, dirão alguns. Ronaldinho e Washington podem não estar em plenas condições de jogo, dirão outros. Pois perguntem a eles? Perguntem aos técnicos e jogadores se eles não fariam qualquer coisa por essa causa. Duvido que alguém caia fora. Será lindo ver dois adversários históricos juntando forças para reconstruir parte de tanta coisa que foi perdida. Lá do céu, os irmãos Mário Filho, rubro-negro, e Nelson Rodrigues, tricolor, verão o jogo sorrindo - e de mãos dadas.

Deste meu pequeno espaço, faço um apelo aos presidentes Patrícia Amorim, do Fla, e Peter Siemsen, do Flu, e ao governador Sérgio Cabral, botafoguense, filho de vascaíno: organizem esse jogo, antes do início do Campeonato Carioca! Vamos colocar o futebol no noticiário da melhor forma possível, como um instrumento de cidadania. A bola está, literalmente, com vocês.

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