Mirella Donerich/AE
Mirella Donerich/AE

Flamengo no coração de um sofrido e pequeno país africano

Por meio de um brasileiro, povo da Guiné-Bissau se apaixona pelo time carioca e tem um pouco de alegria

Mirella Domenich, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2011 | 00h00

Através do bairro da Tchada, uma onda rubro-negra começa a avançar por Bissau. Se antes só se falava sobre o andamento dos campeonatos europeus, de um ano para cá o interesse pelo futebol brasileiro vem ganhando espaço na capital da Guiné-Bissau - uma ex-colônia portuguesa localizada na África Ocidental - graças à crescente paixão pelo Flamengo. E agora, com a contratação de Ronaldinho Gaúcho, os flamenguistas da Tchada desfilam ainda mais orgulhosos vestindo o "manto sagrado" - como se habituaram a chamar a camisa do time.

A "invasão" vermelho e preta começou timidamente em janeiro de 2010, quando o carioca Ricardo Rodrigues, de 30 anos, chegou a Bissau para trabalhar como voluntário da ONU (Organização das Nações Unidas). Torcedor fanático do Mengão, ele não perdia - na verdade, ainda não perde - chance de falar para os guineenses, com os olhos brilhando, sobre as glórias de seu time e o entusiasmo da "nação", como se refere à torcida. Sua frase preferida, que ele repete como um mantra e hoje é usada por vários moradores do bairro, é a seguinte: "Todos nascem flamenguistas, mas alguns degeneram." E assim, na base da conversa, pouco a pouco a Flamengo foi conquistando simpatizantes na Tchada.

Em junho Ricardo recebeu de seu pai, Donaldo, que mora em Patos de Minas, um pacote com oito camisas do Flamengo. Foi um alvoroço no bairro, e ele teve de fazer um sorteio para decidir os felizardos que ficariam com elas. Com a chegada do "manto", o time do bairro, que estava inativo havia dois anos por falta de patrocínio para a compra de uniformes, voltou a campo. E batizado como Flamengo de Tchada - em Bissau existe também o Flamengo de Pefine (um outro bairro), que disputa a Segunda Divisão do país e usa o uniforme da equipe carioca da época em que o patrocínio era da Petrobrás.

No fim do ano, Donaldo foi visitar o filho e levou, a pedido dele, mais 30 camisas do Mengão. A nova remessa e as notícias sobre a negociação para a contratação de Ronaldinho transformaram de vez o bairro num reduto rubro-negro. Ricardo teve certeza disso na madrugada do dia 2 de janeiro, quando foi acordado por um barulho vindo da rua. Nuno Mancabú, de 28 anos, bradava ao microfone seu amor pelo Flamengo e tocava um CD com os cantos da torcida que o carioca havia lhe dado. Em pouco tempo a rua estava cheia de gente gritando "Flameeeengo! Flameeeengo!", para a satisfação de Ricardo, que saiu da cama e se uniu à festa.

Contágio de alegria. Até quem não ligava tanto assim para o futebol foi contagiado pela "Flamengomania". Decalian Insali, de 24 anos, negro forte que é chamado de "NBA" por só usar camisas dos times de basquete dos Estados Unidos, balançava a cabeça para um lado e para o outro e dizia: "Agora eu entendi o que é ser Mengão".

Mas não é fácil ser um flamenguista na Tchada. A precariedade na distribuição de energia do país faz com que poucas casas do bairro tenham eletricidade. Por isso, onde não há energia nem gerador - como na casa de Ricardo, por exemplo - é impossível se informar sobre as notícias e resultados do time - as tevês e rádios (principal meio de comunicação do país) locais não transmitem os jogos. Para se atualizar sobre o Mengão, só mesmo pela internet ou pelo canal da Record Internacional.

Camisa pendurada. Para driblar as dificuldades, Ricardo inventou um método para avisar os moradores de seu bairro sobre o resultado dos jogos, que costumam acabar de madrugada no horário de Bissau (hoje o fuso é de duas horas a mais em relação a Brasília e, sem o horário de verão, chega a três) e são acompanhados por ele via internet. Quando pendura a camisa da equipe na janela de sua casa, os torcedores ficam sabendo, assim que acordam, que o Flamengo ganhou. E começam o dia mais felizes.

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