Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Sem apoio, flanelinha mantém nas ruas de São Paulo o sonho de lutar

Daniel Saboia foi campeão brasileiro de boxe e hoje treina na calçada da Rua Maria Eugênia, na zona leste da capital paulista

João Prata, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2019 | 04h30

Daniel Saboia, 34 anos, é a figura mais conhecida da Rua Maria Eugênia, na zona leste de São Paulo, onde há 18 anos trabalha como flanelinha. A cicatriz no queixo, o nariz amassado e as marcas das lutas de boxe no rosto escondem um rapaz simpático que acena para todos e agradece o trocado recebido em inglês: “thank you, my friend”. 

Quando o serviço dá uma trégua, Daniel aproveita para treinar, na expectativa de retomar as conquistas dos ringues de sua juventude. Daniel foi um dos mais promissores lutadores de boxe do País, quando conquistou com apenas 20 anos o título brasileiro dos meio médios. Mas a falta de apoio, os golpes recebidos de empresários e o baixo valor pago para lutar o tiraram de cena. Faz três anos que não consegue um combate. 

Mas guardador de carros não desiste. Ele veste as luvas, pendura o saco de areia em um galho de árvore e faz da calçada sua academia. As crianças costumam parar para assistir, os carros na rua buzinam em apoio ao lutador. Tem muita gente no bairro que faz o sonho de Daniel continuar vivo. 

A loja de produtos naturais no início da rua colabora com a vitamina da manhã, cereais e com algumas frutas. O restaurante a quilo duas casas ao lado garante a marmita do almoço. O médico que passa diariamente por ali não cobra pelos exames de rotina. “Ele que me dá os remédios quando recebo as pancadas nas lutas. Me conhece desde pequeno”, diz o flanelinha. 

O título conquistado na juventude foi colocado por duas vezes em jogo. E mantido. Na quarta, ele se recusou. “Queriam continuar me pagando R$ 1.000 pela luta, R$ 800 para mim e R$ 200 para o técnico. Ganhei isso na primeira vez. Me prometeram dar mais na segunda, mas não deram. A mesma coisa na terceira. Na quarta não aceitei”, lembra.

Las Vegas

A promissora juventude passou, mas ele ainda não desistiu de lutar em Las Vegas, onde viu seus principais ídolos. Daniel começou a gostar de boxe quando tinha por volta de 15 anos, assistindo Mike Tyson e Evander Holyfield nos ringues. Também é fã e tenta imitar Eder Jofre. “Tento dar os golpes na linha de cintura como ele fazia”, conta.

O início das aulas de boxe aconteceu um pouco depois da vinda de Daniel para São Paulo, quando tinha 11 anos. Natural de Cratéus, no Ceará, ele e os seis irmãos foram trazidos à capital paulista pela tia logo depois da perda de sua mãe. O pai, alcoólatra, não tinha condições de cuidar das crianças. 

Sabonete e Virgulino

Sem dinheiro para sustentá-los, a tia precisou colocar as crianças para trabalhar. Nos anos 80, havia um fotógrafo que era dono de um jegue chamado Sabonete e de um carneiro, o Virgulino, que era pintado de amarelo e vermelho. O garoto puxava os dois pelas ruas da zona leste para tirar fotos com crianças. Uns anos depois, trabalhou na feira e por volta dos 15 anos se instalou na Maria Eugênia. 

A família viveu por muitos anos em uma pensão. Três dos seus irmãos estão lá até hoje. Daniel mudou-se no ano passado. Francisco da Silva, o dono da loja de produtos naturais, ofereceu um imóvel que estava abandonado como moradia. “Deixei de gastar com a casa e estou tentando guardar um dinheiro para ter a casa própria.” 

O local não possui água encanada e a luz elétrica vem de um emaranhado de fios aparentes. São dois quartos, sala e um banheiro. Daniel divide a casa com um irmão que “levou chifre da mulher e agora bebe todo dia”, além de dois vira-latas. A pia da cozinha é lotada de garrafas de leite onde o lutador armazena água. Todos os cômodos são entulhados por eletrônicos antigos dos mais diversos: tevê, fax, vídeo cassete, três microondas, DVDs. 

Outro motivo que fez Daniel deixar a pensão foi a proximidade do novo imóvel com o Clube Atlético Guarany, que oferece espaço para ele treinar à noite. Mas Daniel só aparece de vez em quando. Isso porque depois do expediente de flanelinha, o lutador faz uns bicos de segurança. Pela proximidade com o Parque São Jorge, costuma colaborar em eventos de jogadores de futebol e dirigentes. A ex-presidente Marlene Matheus, que morreu no início do ano, costumava solicitar seus serviços.

Daniel guarda em um álbum diversas fotos com celebridades. O ex-pugilista Acelino Popó Freitas, tetracampeão mundial, aparece em uma imagem ao lado de Daniel ainda jovem. “Ele me ajudou no começo e conseguiu uma luta pra mim.” 

Desde que fez a primeira luta até hoje, Daniel nunca conseguiu viver exclusivamente do boxe. Foram 24 lutas, com 21 vitórias, sendo 16 nocautes, e três derrotas. Alguns dos principais combates ele guarda em DVDs, graças a transmissões do SporTV, BandSports e RedeTV. Os registros ficam em caixas no seu quarto junto com diversas medalhas e troféus. 

A descrença com a modalidade o fez começar a aprender recentemente jiu-jítsu e muay-thai. A intenção é para o ano que vem entrar no octógono e começar no MMA. A pequena deformidade na orelha esquerda indica que ele vem treinando duro. 

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