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Fogo amigo

Juvenal Juvêncio recorreu em inúmeras ocasiões ao bordão "é difereeeentche!" para definir como o São Paulo funciona, na administração e na política. O ex-presidente desejava, dessa maneira, reforçar a imagem de clube prazeroso, altivo, elegante, com esporádicas dissensões internas. E, se houvesse algo fora de sintonia, a solução surgiria naturalmente, sem traumas.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2014 | 02h03

Quadro ideal e bonito, sem dúvida, não só para agremiações esportivas, como para qualquer empresa ou atividade. A realidade hoje arranha a harmonia, e fervem os bastidores tricolores. A atiçar o fogo na caldeira Carlos Miguel Aidar, que assumiu o clube no começo do ano. Em entrevista, anteontem, ao jornal Folha de S. Paulo, o presidente de agora cutucou o antecessor ao admitir que há crise financeira na entidade. De quebra, definiu como ultrapassada a gestão anterior.

O desabafo pegou mal, pois Aidar elegeu-se com apoio de Juvenal - ou seja, com a guarida da turma da situação. Já rebateram com a lembrança de que, mesmo com caixa baixa, o mandachuva de hoje investiu R$ 20 milhões para tirar Alan Kardec do Palmeiras. Quer dizer, aumentou as despesas.

A história pelo visto promete novos capítulos e revelações sensacionais. O fogo amigo não cessou, a não ser que logo entrem em cena bombeiros e apaziguadores para contornar o mal-estar. O episódio mostra, na leitura mais rasa, que o São Paulo não foge à regra e tem problemas, divergências, grupos, conchavos e guinadas como qualquer associação. Enfim, é normal demais.

Segunda interpretação a se levar em conta se refere à estrutura dos clubes. No papel, nos estatutos, são entidades amadoras, com organograma próprio e pertencem à comunidade dos sócios. Com regularidade, de acordo com as normas vigentes, são realizadas eleições. Presume-se que haja rotatividade no poder, etc, etc. Ninguém pode tornar-se senhor absoluto de algo que não lhe pertence, de um bem coletivo.

Na prática, no entanto, não é isso que ocorre. Os clubes, independentemente de importância, repercussão e volume financeiro que movimentam, vivem sob o controle de "partidos". Não é rara a figura do homem forte no comando. Ao contrário, mais frequente do que se imagina e seria saudável.

Comum a presença de beneméritos, patronos e caciques, que concentram o poder e nele permanecem por muito e muito tempo. Nem vou citar nomes aqui, e garanto que na sua cabeça virão vários exemplos, desde bicheiros que bancavam tudo com os recursos da loteria zoológica a empresários dos mais diversos ramos. Até sem atividade especificada ou conhecida do público.

Nesse bolo, há milionários que tomam a direção por paixão, afirmação. Por diletantismo. Idem para arrivistas, alpinistas sociais que vislumbraram modo fácil para ascensão econômica. Corriqueiros casos de cartolas que seguiram carreira política - ou ao menos tentaram - com apoio dos torcedores.

Tanto um perfil quanto outro estão defasados. O dirigente não tem de colocar dinheiro do próprio bolso para honrar compromissos que muitas vezes pegou como herança maldita. Tampouco deve tirar benefício particular do tempo que permanecer no topo da pirâmide. Precisa ter, sempre, postura, atitudes, decisões, reações de empresário. Deve comportar-se como executivo para manter a estabilidade da empreitada.

Resumo: está mais do que na hora de os clubes terem gestão profissional, incluída aí a função do presidente. Como não se permite a compra do clube, pelo menos que se convoquem pessoas preparadas, com transparência e responsabilidade na condução dos trabalhos. Sob supervisão de um conselho livre, ao contrário do compadrio de hoje.

Não tem cabimento os clubes mexeram com quantias altíssimas sob a tutela de "amadores e abnegados". Por isso, muitos abusam dos gastos, dão calote em impostos e correm com pires na mão para pedir socorro ao governo. Ao mesmo tempo, se digladiam em grupelhos e com trocas de desconfianças e falatório.

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