Foi pênalti, mestre?

A jogada é relativamente simples: quando Jorge Henrique lança a bola para Ronaldo, o zagueiro Gil dá três passos, ganha força e impulsão para subir e cabecear, imaginando a dividida pelo alto. O problema é que o corintiano fica parado e a pelota perde força. Aos 41 minutos do segundo tempo de uma partida extremamente difícil, o defensor aterrissa sobre as costas do atacante. Pênalti infantil, besta, mas pênalti.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2010 | 00h00

Não existe outro nome para definir o lance no Pacaembu. A visão frontal, de cima, não esclarece a confusão na área. A câmera atrás do gol, entretanto, é conclusiva: Gil falha, deixa Ronaldo escapar do seu perímetro de marcação e o atropela. O cruzeirense não disputa a bola, simplesmente comete a falta.

O que assusta é a polêmica em torno de algo com responsabilidades tão bem definidas a partir da ajuda virtual. A discussão me faz lembrar das aulas na Escola de Arbitragem da Federação Paulista de Futebol. Gustavo Caetano Rogério, grande mestre, insistia muito nesse tipo de situação. Ensinava: um jogador não pode sofrer carga nas costas.

Está bem claro que uma intervenção desse tipo deve ser definida como infração à regra, mesmo num ambiente de livre interpretação e de muita abstração. A falta tem o mesmo valor dentro ou fora da área. A diferença está no local onde ela é cobrada e, talvez, nas consequências. Se ocorrer no latifúndio do goleiro, a bola vai terminar na marca do pênalti.

O lance divide opiniões, estimula teorias conspiratórias e joga o árbitro, no caso Sandro Meira Ricci, na vala dos picaretas. Pior, o maldito pênalti enterrou a história de uma partida muito boa, milimetricamente trabalhada pelos treinadores.

Cuca sabia que Ralf acompanharia Montillo em cada pedaço do gramado e procurou criar uma alternativa inteligente para o passe no meio de campo. Escalou a equipe no 3-5-2 e deu liberdade a Gilberto no lado esquerdo, cuja maior incumbência defensiva era vigiar o lateral Alessandro para deter a transição da bola por aquele setor.

Quanto ao time corintiano, você já deve saber reconhecer os pilares da nova administração: estabilidade, posicionamento e a crença de que a qualquer momento vai surgir a jogada salvadora. São quatro vitórias em cinco jogos e apenas um gol sofrido, de bola parada, marcado pelo Flamengo.

No geral, o Cruzeiro foi melhor. No primeiro tempo, porque teve a iniciativa, a bola e a superioridade tática. No segundo, porque recebeu o Corinthians em seu campo e desfrutou do espaço para contra-atacar, fazendo do goleiro Júlio César um dos destaques da partida. Mas o detalhe foi corintiano, o detalhe chamado Gil, que mesmo diante da falta de mobilidade de Ronaldo se apavorou e deu-lhe um tranco nas costas.

Aos 43 do segundo tempo, o "camisa Super G" nove ajeitou a bola e a mandou para a rede, dando início a uma polêmica cujo tamanho vai depender do resultado final do campeonato. Se der Corinthians, eis o lance que definiu o título.

A vitória corintiana interferiu no rendimento do Fluminense. Pressionado, o time de Muricy Ramalho não teve tranquilidade, mesmo com Deco e Conca, para trabalhar a bola com a devida paciência diante do desesperado Goiás. Passou o primeiro tempo sofrendo e o segundo correndo atrás do empate, um péssimo resultado para um confronto de três pontos obrigatórios.

No Engenhão, o empate veio por meio de um pênalti menos evidente que o do Pacaembu, mas igualmente pênalti. A três partidas do fim, o Corinthians salta para a ponta com a vantagem de um ponto sobre o Flu e três sobre o Cruzeiro. Mas sem poder comemorar nada. Embora não pareça, o campeonato é melhor do que seus pênaltis.

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