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Antero Greco, antero.greco@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

20 de março de 2009 | 00h00

Vinha ontem pra cá disposto a falar de Neymar, a mais recente boa notícia de nosso esporte. Pensava também em fazer algumas divagações em torno da seleção e do frescor e da qualidade da safra que Dunga tem à disposição, se for ousado. Mudei de ideia ao ver na Globo, e em seguida ao ler no Estado, reportagens sobre Pedro Rocha. Sucintas, diretas e comoventes.Antes de mais nada, você que é jovem me diga: sabe quem é Pedro Rocha? Se sabe, parabéns. Se ignora a importância de El Verdugo, me desculpe, mas vagueia pelas trevas futebolísticas. Mais ou menos como o Bruno, goleiro do Flamengo.Pedro Virgilio Rocha Franchetti namorou a bola como poucos. Entre os anos 60 até o despontar da década de 80 desfilou sua elegância em gramados do mundo todo. Arrasou no Peñarol, seu berço em Montevidéu, depois na seleção uruguaia. Viveu o auge da carreira no São Paulo dos anos 70. Pedro Rocha sempre foi o 10 por definição - e numa época em que usavam essa camisa mística craques da estirpe de Pelé, Dirceu Lopes, Rivellino, Ademir da Guia, para ficar em alguns exemplos domésticos. Refinado, dentro e fora de campo. Anos atrás, conversava com ele e o assunto chegou à Copa de 74. O tempo não fez diminuir a admiração pela seleção da Holanda, adversária na primeira fase. "Parecia que eles jogavam com 12, com 14", recordava. "Não víamos a cor da bola." O Carrossel ganhou por 2 a 0.Rocha aos 66 anos enfrenta problemas provocados pela erosão que a idade provoca em nosso corpo vulnerável. As imagens da tevê que mostram o senhor de hoje são apenas um registro do tempo. Fiquei emocionado, mesmo, ao rever breves lances da magia que eram seus toques, dribles, passes e gols. O presente de Rocha não difere muito daquele de tantos ex-jogadores. Nostalgia de outras eras, contatos com poucos amigos boleiros (Muricy e Terto são os mais próximos) e ver futebol pela tevê como passatempo. Aposentadoria precoce, depois de aventuras como técnico.Para a minha geração - sim, lembro da conquista do tri em 70 -, Rocha é um símbolo, um mito, um monstro sagrado, um astro e outros adjetivos surrados mas que o tempo não corrói quando se trata de definir aqueles que de fato os merecem. Profissional já rodado e experiente, várias vezes controlei o impulso de pedir-lhe autógrafo durante uma entrevista. Cá entre nós, me arrependo...Gente como Rocha merece respeito, porque tem lastro, estofo, acumulou tesouros esportivos que não somem. Só que mesmo ele corre o risco, ainda, de passar por saia-justa como ocorreu com Andrade. Lembra? Na semana passada, após bate-boca banal de fim de treino, na Gávea, o goleiro Bruno saiu de campo vociferando contra o auxiliar de Cuca: "Você não ganhou nada como treinador". Assim, como se falasse com um zé-ninguém. Não imaginava a repercussão negativa de seu destempero, por ignorar o meia que, nos anos 80, formou um dos maiores esquadrões do futebol e que venceu tudo com o Fla. Bruno admite até ir embora, espera avidamente convites e fala-se que o Benfica será seu destino. Sorte sua, se isso ocorrer.Mas a atitude de Bruno não surpreende em um país em que não se respeitam os mais velhos, em que se diz, como se fosse gracinha inteligente, que quem gosta de passado é museu. Não é por acaso que muitas vezes os Rochas e Andrades que nos alegraram são tratados com desdém, o que me remete a Chico Buarque, em seu Folhetim: "Mas na manhã seguinte/Não conta até vinte/Te afasta de mim/Pois já não vales nada/És página virada/Descartada do meu folhetim".

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