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Antero Greco
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Folhinha malvada

Muita gente festejou a parada de mês e meio no Brasileiro, entre junho e julho, por causa da realização do Mundial por aqui. Treinadores e jogadores saudaram o tempo extra para pausa, a ser aproveitada para reforçar preparação, já que o começo do ano foi puxado. O preço pela folga chega agora e o ganho de energia corre o risco de ser sugado pelo encavalamento do calendário. O mês de setembro chega ao fim com a marca de sete rodadas consecutivas do campeonato - oito sem descanso, se for computada a última de agosto.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2014 | 02h00

Parece muita coisa - e é. A sofreguidão com que a disputa acelerou, para recuperar tempo perdido, leva a desgaste físico e emocional. O prejuízo fica democraticamente dividido, pois atinge tanto a turma que briga pelo título como os que procuram fugir do rebaixamento ou mesmo o pessoal que não vai pra frente nem para trás.

Muitas vezes soa como conversa fiada de técnicos quando lamentam o atropelamento da folhinha. Choradeira sem sentido e escudo para respaldar-se de tropeços. Em parte, até pode ser. No todo, porém, estão cobertos de razão. A sucessão de partidas leva à rotina de concentração, jogo, viagem, retorno, reapresentação, concentração, jogo. E o círculo vicioso se repete...

Por isso, a saída tradicional se restringe ao rodízio, quando a variedade do elenco permite, e o piloto automático. Isso mesmo: treinador se reúne com colaboradores, após um jogo, repassa a situação dos atletas, deixa de lado quem estiver pior, olha para as alternativas no banco, torce para que eventuais conexões de voo se mostrem breves. E seja o que Deus quiser.

Time que vive bom momento talvez sinta em menor dose os efeitos desse louco vaivém. A cobrança diminui, a cabeça "pesa" menos. Otimismo relativo, bem entendido, porque o físico é submetido a teste de força incomum. Para os que estão por baixo, faltam fôlego nos pulmões e leveza de raciocínio. E sobram preocupações, medos e pressão: as pernas carregam toneladas.

Sutilezas e ganhos em tese, apenas. Tal salada russa também tem o lado curioso, de fomentar zebras na prática. Duelos que despontariam como barbadas para os que estão em melhor situação ou atuam como mandantes, podem levar a surpresas. Ótimo só para os que apostam em resultados imprevisíveis. Sei, dão sabor aos torneios, se olharmos pelo aspecto folclórico.

Nessas horas me vem em mente o jogo que Internacional e Figueirense disputaram em Porto Alegre, no início do mês. Os gaúchos venciam por 2 a 0, cumpriam o papel de perseguidores do Cruzeiro, na liderança, até se verem surpreendidos pela virada e os 3 a 2 finais. Para complicar, o Inter acumulava decepções, com eliminações na Copa do Brasil e na Sul-Americana, além de tropeços no Brasileiro. Sinal evidente de desequilíbrio físico e emocional.

Alguém pode alegar que se trata de ano atípico, que a Copa foi evento excepcional, que não havia alternativa, o risco era calculado, coisa e tal. Verdade. Nem por isso não deve deixar de ressaltar que o ritmo no momento ficou voraz. É fato. Importante tocar no assunto para ajudar o torcedor a compreender a etapa em que entraram as Séries A e B.

Não haverá respiro até o encerramento do ano - em 7 de dezembro. Só na elite deverão ser realizadas mais 13 rodadas. Entremeadas por Copa do Brasil e Sul-Americana para aquelas equipes que ainda estiverem na disputa. Ah, claro, e a seleção brasileira dará a contribuição que lhe cabe, com amistosos em Pequim, Cingapura e Istambul.

Não se assuste com eventual festival de desfalques no seu time. Motivos estão por aí, à escolha: contusão, fadiga muscular, acúmulo de cartões, convocações. A saída é torcer para que 2014 acabe logo, de preferência sem danos maiores. A compensação virá para os campeões, os classificados para a Libertadores, para os que driblaram a degola ou ficaram em zona neutra. E imaginar 2015 mais racional.

Você acredita? Tenho dúvidas.

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