Fome de bola

Fome de bola

Tem dia em que fico um pouco injuriado com o futebol. Sinto uma espécie de congestão, me empanturro de tanto ver a bola a rolar na telinha da tevê e ao vivo nos estádios ou de tanto escrever e falar a respeito dessa paixão sempre mais mundial. Imagino se não devia trocar de ares para não enjoar de vez. Ou, quem sabe?, optar por período de abstinência.

Antero Greco, O Estadao de S.Paulo

29 de março de 2010 | 00h00

A fome de bola, no entanto, volta rapidinho, sobretudo quando assisto a duelos como aquele que Corinthians e São Paulo fizeram, ontem à tarde. Ou, com os recitais divertidos com os quais o Santos nos tem brindado neste ano -, o mais recente fechou o domingo, contra o Monte Azul, na Vila Belmiro.

O clássico no Pacaembu não foi um primor do ponto de vista técnico. Mas, sejamos realistas: quantos jogos podemos classificar como extraordinários nos tempos que correm? Em compensação, não faltaram ingredientes essenciais para alimentar nosso apetite por emoção: muitos gols (contra, até, e decisivo), reviravoltas no placar, nervosismo, expulsões, falhas de goleiro. E chuva, para aumentar a dramaticidade.

O São Paulo teoricamente se apresentou com formação leve, em meio-campo menos pegador, com Rodrigo Souto, Cléber Santana, Leo Lima e Hernanes. Para ver se emplacava o primeiro clássico, já que havia caído diante de Lusa, Palmeiras e Santos. O Corinthians, assustado com duas derrotas consecutivas, apelou para composição mais conservadora no setor, com Ralf, Jucilei e Elias, marcadores ágeis, e Danilo. No mais, cada um contou com linha de quatro zagueiros e dois atacantes. Felipe, contundido, foi a baixa significativa do Corinthians.

O que poderia ser um jogo de xadrez - cerebral, lento, de paciência -, assumiu ritmo agradável a partir dos 19 minutos, com o primeiro gol corintiano. O lance teve uma refinada trocas de passes, entre Danilo, Dentinho, Ronaldo, até a conclusão de Elias. Um quarteto que estimula reflexões. Danilo fez sua melhor apresentação desde que chegou ao Corinthians e ainda marcou um belíssimo gol, o segundo e que por pouco não afunda o São Paulo ainda no primeiro tempo. Dentinho é vibrante e participativo, porém precisa abandonar o mau costume de dar cotoveladas - a de ontem rendeu-lhe cartão vermelho. Ronaldo mal andou em campo, não deu uma arrancada, não ganhou uma dividida. Elias continua a ser um dos volantes mais regulares que atuam por estas bandas: destrói, arma e conclui a gol com igual eficiência.

O São Paulo renasceu com o gol de Jean, antes do intervalo, e não se abalou tanto com a expulsão de Washington no entrevero com o Dentinho. Não jogou a toalha nem com o terceiro gol, na falta bem cobrada por Roberto Carlos, no começo da etapa final, e que induziu Rogério Ceni a bater roupa e errar.

A postura equilibrada foi importante para anular a desvantagem tricolor. Vá lá que o goleiro Rafael, substituto de Felipe, deu sua contribuição, ao soltar nos pés de Rodrigo Souto chute rasteiro em falta de Hernanes e também ao não sair com firmeza no lance do empate. Na verdade, o Corinthians todo relaxou, pecado mortal em clássicos.

Até o gran finale engrandeceu o jogo. Mano Menezes poderia ter tirado Ronaldo no intervalo, se quisesse. Preferiu mantê-lo o máximo possível e mandou Iarley entrar aos 42 minutos. Na segunda bola que pegou, lascou uma bomba que desviou na cabeça de Alex Silva e fechou o placar.

Batalhas memoráveis também são feitas de lances fortuitos. Senão, onde ficaria a graça do futebol?

A dança do Ganso. É uma delícia ver como esse jovem se firma no meio-campo do Santos. Não lhe faltam classe, visão de jogo e precisão no passe. Muito menos sutileza nas conclusões, como no toque por cobertura no segundo gol contra o Monte Azul. A bola entrou com leveza...

Demência. Quem fez a torpeza de mandar carta ameaçadora com balas de revólver para o Luiz Belluzzo, presidente do Palmeiras, merece camisa-de-força ou um par de algemas e processo criminal.

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