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Fora de hora

Meu amigo, para que preocupar-se com a situação de sua equipe nesta fase de arrancada final de temporada? O que interessa se ainda tem chance de título, se pode pegar Libertadores ou corre risco de desabar para a Série B - ou C? Suspenda sentimentos menores, ao menos neste sábado pela manhã. Acorde mais cedo, tome um café, leia o Estadão e transfira toda a emoção para a telinha da tevê.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2014 | 02h04

Por quê? Não me diga que está desinformado! Tem seleção brasileira em campo, esqueceu? Isso mesmo, o time nacional, que um dia foi nossa grande paixão, acima de questões clubísticas e bairristas, estará em campo. Claro que não por aqui - já seria demais. Jogar em casa faz parte do passado, coisa velha, de quem não tem prestígio. O Brasil, negociado pela CBF a peso de ouro, enfrentará a Argentina, a grande rival, em Pequim. Espetacular, meu caro, negócio da China.

O Ninho do Pássaro, ousadia arquitetônica erguida para a Olimpíada de 2008, receberá outra edição do Superclássico das Américas, o apelido inventado para vender todo ano confrontos entre duas escolas de peso do esporte mundial. Tem até taça em disputa, para acrescentar pitada de emoção - e de seriedade - a tal episódio comercial. Exato, transformaram uma gostosa tradição futebolística em fonte de grana.

Nada contra alguém faturar - faz parte. A bronca recai sobre a mistificação, o oportunismo e a inconveniência. Explico. Brasil x Argentina virou lenda por causa de duelos épicos, na terra de um ou de outro, ou em Mundiais ou em Copas América. O calor das respectivas torcidas sempre teve forte influência na temperatura no gramado.

Agora, com a mania de levar os dois times a perambular pelo mundo, por acertos das federações, se tenta convencer o cliente - nem escrevo fã, pois seria entrar na conversa da cartolagem - de que o significado do confronto permanece inalterado. Mentira. Até o tira-teima Neymar x Messi soa falso, coisa para chinês ver, porque são amigos e companheiros de Barcelona.

Mas, sobretudo, é inadequada a apresentação da seleção por atrapalhar a vida dos clubes. Não os europeus, que esses não são tontos nem rasgam nota de cem euros. As competições entram em pausa, prevista em calendário, para amistosos e Eliminatórias. Sem crise.

Falo do pessoal daqui. Muitos mortos de fome, com as calças nas mãos, com pavor do fim do mês sem caixa, fora o medo de rebaixamento, ainda ficam privados das raras estrelas, por várias rodadas, só para satisfazer a agenda da CBF. Não têm argumento.

A entidade que deveria cuidar da saúde dos times, da razão da existência dela, vira as costas, finge que não tem nada com a história e apoia o esfacelamento de patrimônio. Danem-se o Brasileiro, a Copa do Brasil, a Sul-Americana. As equipes que se arranjem. E olhe que a seleção ainda terá de enfrentar o Japão, depois a Turquia, a Áustria...

A bomba estoura no colo de treinadores - de Dunga aos colegas dele -, que quebram a cabeça para montar escalações decentes, tanto lá quanto cá. A responsabilidade recai sobre eles - e quem pode mais, chora menos, para ficar no popular.

No caso, Dunga pode mais. Como seleção tem prioridade, chama os que considera aptos a vestir a amarelinha. Como lhe propuseram o desafio de reconstrução, já para a Copa América de 2015, não se dispõe a baixar a guarda. Desfalcar times domésticos não é problema dele. Aos outros cabe dizer amém - e alguns, como Felipão, Luxemburgo e Mano, ficam de bico calado porque estiveram do outro lado.

Por curiosidade, e por dever profissional, estarei atento à televisão, respeitarei o esforço do locutor para dar tom de epopeia - "Amiiiiigo, Brasil x Argentina sempre é diferente!". Também seguirei as manobras de novos e veteranos convocados por Dunga, no reinício de trabalho. Vamos ver que bicho vai dar.

Mas não cairei nessa de que se trata de compromisso inadiável e imprescindível. Com o circo a pegar fogo aqui, seleção é uma insolência.

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