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Ugo Giorgetti
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Fora do campo

Futebol vive de novidades. O problema é que há poucas novidades, cada vez menos. Os jogadores, fontes das novidades mais interessantes, hoje têm um discurso pronto para cada pergunta. É sempre morno, destinado a não emitir qualquer opinião e dar a impressão de muito sensato, muito “comprometido” e muito profissional. Para quem vive do futebol não há nada pior do que sensatez, “comprometimento”, profissionalismo.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2015 | 03h00

É claro, por outro lado, que os boleiros tem que se defender. Não se fala mais nada sem pensar nas consequências. Vivemos tempos do politicamente correto, expressão que, às vezes, é um sinônimo de intolerância e intransigência. As emissoras, então, conceberam uma alternativa interessante: enchem seus programas com antigos boleiros. É só ligar a tevê e damos de cara com algum jogador do passado. E aí a coisa é bem mais interessante. O boleiro do passado, retirado e vivendo sem as mordaças da correção, pode falar o que quiser. Aparece então um futebol muito mais relaxado, com uma infinidade de casos, lembranças, evocações, narrados de modo descontraído e na linguagem do futebol.

Os bastidores do jogo são revirados, treinadores passam a ser não mais os sagrados “professores”, mas personagens de alguma passagem hilariante ou mesmo constrangedora. Como há um exército de antigos grandes jogadores dando sopa, com tempo de sobra para falar, a fonte é virtualmente inesgotável. Além de frequentemente ser uma grata surpresa, pois revemos jogadores que admiramos no passado e matamos a curiosidade de saber o que se tornaram hoje em dia.

É claro que aprecem só os vencedores e o drama do futebol é deixado na obscuridade e na sombra. Mas ainda assim é melhor ver um craque contando suas aventuras do que ouvir platitudes sérias e comentários acadêmicos sobre o que estamos todos vendo. Esses programas que se utilizam dos velhos craques tendem para o humor, que é uma das vertentes do futebol. Os jogadores parecem sempre estar se divertindo imensamente.

Isso não é inteiramente novidade. Silvio Luiz já fazia muitos anos atrás, numa das nossas TVs, um programa muito escrachado, com personagens do mundo da bola realmente desvairados e muito divertidos. A diferença é que nos dias de hoje, tão sérios cheios de “professores” e “graduados” em futebol, esses programas pareciam enterrados definitivamente como coisa de um mundo atrasado. Está se vendo que o mundo não mudou tanto. Ex-boleiros aparecem também como comentaristas. E aí a coisa fica mais difícil porque o boleiro compete com profissionais da critica, experientes e muitas vezes talentosos jornalistas, acostumados ao microfone e seus segredos.

Nesse caso geralmente o boleiro perde, pois não pode exercer sua natureza e sua espontaneidade. Tem obrigatoriamente de ser sério, porque partidas de futebol são coisa séria. E perdem o brilho. Poucos são os que não resistem e, mesmo como comentaristas, traem de vez em quando o boleiro que tinham sido. Não sei se esses dão muito certo.

O meu favorito, o que mais me agradava, não tenho mais visto: Muller. Me divertia muito com ele porque, pra começar, não escondia seu tédio mortal quando o jogo era ruim. Ficava em silêncio até que o narrador o chamasse para dizer alguma coisa. O silêncio de Muller era o melhor comentário sobre a partida. Além das observações cortantes, criticas impiedosas para lances medíocres e decisões erradas; ele que fazia tudo certo. Curiosamente é um dos mais citados por velhos boleiros nos vários programas. Sempre como o fora de série, sempre como o homem que pensava antes. De fato como comentarista não poderia dar muito certo. Talvez devesse estar entre os boleiros que rememoram e contam casos. Sem dúvida se daria bem. De qualquer forma, do jeito que as coisas vão, qualquer dia boleiro aposentado vai dar mais audiência do que boleiro em campo.

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