Wilton Junior/Estadão
O ginasta Arthur Nory, atleta da Aeronáutica, durante treino da seleção brasileira masculina de ginástica olimpica no Parque Olimpico da Barra da Tijuca, zona oeste do Rio Wilton Junior/Estadão

Forças Armadas vão investir R$ 10 mi em atletas de alto rendimento em 2019

Valor, que significa 25% a mais do que foi investido em 2018, representa exceção em cenário de crise

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2019 | 04h30

Em 2019, o Ministério da Defesa vai investir R$ 10 milhões no Programa de Atletas de Alto Rendimento (PAAR), desenvolvido em parceria com o Ministério do Esporte, hoje transformado em secretaria especial. O valor significa um aumento de 25% em relação ao ano passado, quando foram destinados R$ 8 milhões para a preparação, treinamento e participação dos atletas de elite em disputas nacionais e internacionais. O crescimento representa uma exceção no cenário nacional, marcado pela retração dos investimentos nas esferas pública e privada. 

Hoje, a judoca Jéssica Pereira não tem patrocinadores. Ela recebe uma bolsa do Instituto Reação, clube onde treina no Rio de Janeiro, o benefício da Bolsa Atleta na categoria pódio e os vencimentos como terceiro sargento do Exército desde 2016. Além disso, usa a estrutura do Exército, como médico, nutricionista e sala de musculação. “O PAAR está sendo importante para a sobrevivência de muitos atletas”, opina o nadador Leonardo de Deus, também terceiro sargento do Exército. 

Na esfera pública, o governo federal reduziu em 47,5% o número de beneficiados do Bolsa Atleta e anunciou o fim das categorias “atleta estudantil” e “atleta de base” em decisão publicada no fim da gestão Michel Temer (MDB). O orçamento do programa caiu de R$ 79,3 milhões para R$ 53,6 milhões. Os atletas que recebem a bolsa caíram de 5.866 para 3.058. 

Na esfera privada, os competidores reclamam das dificuldades para renovar patrocínio. “Mesmo sendo medalhista, está sendo difícil a busca por patrocinadores. Fico imaginando para os atletas que estão começando”, diz a velejadora Kahena Kunze, campeã olímpica nos Jogos do Rio ao lado de Martine Grael e atleta da Marinha. 

Uma das razões do investimento do Ministério da Defesa é o bom desempenho dos atletas militares. Na Olimpíada do Rio, eles conquistaram 13 das 19 medalhas do Brasil. Isso significa 68% dos pódios nos Jogos. 

Outro motivo é o calendário. Em outubro, serão realizados na China os Jogos Mundiais Militares. A delegação brasileira quer se manter entre as três maiores potências desportivas militares do mundo. Em 2015, o Brasil ficou em segundo na Coreia; em 2011, no Rio, liderou. São quase 400 atletas do País. “Os Jogos Militares são uma etapa intermediária de preparação para os Jogos de Tóquio. A meta principal é preparar equipes e atletas para as seletivas olímpicas”, explica o general Jorge Antonio Smicelato, diretor do Departamento de Desporto Militar do Ministério da Defesa.

A rotina dos atletas do PAAR é diferente do dia a dia dos militares de carreira. Ana Marcela Cunha, terceiro sargento da Marinha, conta que ela se apresenta três ou quatro vezes ao ano nas instalações militares para reciclagem. O restante do trabalho é feito no clube onde treina, no caso a Universidade Santa Cecília (Unisanta), em Santos. “O Exército entende as nossas necessidades de treinamento e nos permite treinar nos nossos clubes. Temos uma reciclagem obrigatória anualmente na qual cumprimos todas as atividades militares”, explica o judoca David Moura. 

Em 2017, Jéssica se apresentou entre cinco vezes no Forte da Urca, Rio de Janeiro, para programas de reciclagem e eventos especiais. “É uma honra fazer parte das Forças Armadas, ter todas as vivências de um militar, seguir os princípios do exército como honra, hierarquia e companheirismo”, avalia a judoca que foi quinta colocada no Mundial de Baku, em setembro, na categoria até 52 kg.

Para ser um atleta do PAAR, é preciso ser da elite do esporte. O programa considera os resultados em competições nacionais e internacionais e as medalhas se transformam em pontuações. A inscrição é voluntária para as 42 modalidades olímpicas. Terceiro-sargento da Aeronáutica, o ginasta Arthur Nory diz que foi convidado em 2016 para integrar o programa, que estava iniciando na modalidade. “Hoje temos uma equipe completa de ginástica”, orgulha-se.

Entrevista

Ana Marcela Cunha - nadadora, atleta da Universidade Santa Cecília (Unisanta) e terceiro sargento da Marinha

1. Por que você decidiu entrar para o PAAR? 

Eu me inscrevi devido ao apoio das Forças Armadas, especificamente a Marinha do Brasil. Também pesou o fato de ter tido parentes integrantes do corpo de Fuzileiros Navais e da própria Marinha. Ouvi várias histórias de meus pais sobre o orgulho que eles tinham de ser militar.

2. Como o programa contribui com sua carreira?

Além do apoio financeiro, tenho a estrutura esportiva no Cefan-RJ à disposição, como o centro de recuperação e fisioterapia. São duas piscinas (25 m e 50 m), sala de musculação, apoio médico-hospitalar, odontológico e psicológico no País e no exterior.

3. Como é sua rotina?

A rotina é diferente dos militares de carreira, pois meu foco é me preparar e competir nos Jogos Militares, apresentar resultados e representar o Brasil nas competições internacionais. De três a quatro vezes ao ano, nós passamos por reciclagens.

4. Como você avalia o programa diante da crise econômica do País?

Vejo como uma contribuição fundamental para qualquer esporte esse apoio técnico e financeiro dado pelas Forças Armadas. Está contribuindo para que o Brasil futuramente se torne uma potência olímpica.

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'Investir no esporte é investir em saúde, educação e segurança pública'

Nadador analisa o Programa de Atletas de Alto Rendimento das Forças Armadas

Entrevista com

Leonardo de Deus - nadador e atleta militar

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2019 | 04h30

1. Por que você decidiu integrar o Programa de Atletas de Alto Rendimento das Forças Armadas?

Venho de família de militares. Meus avós serviram o Exército e a Aeronáutica. Meu pai é coronel aposentado da Aeronáutica. Assim sempre tive vontade de também fazer parte das Forças Armadas de alguma maneira. Com o PAAR, tive essa oportunidade. Temos muitas dificuldades na questão de apoio e também de infraestrutura para o desenvolvimento de atletas (base/alto rendimento) no Brasil. Como atleta do PAAR, tenho a oportunidade, tanto financeira quanto estrutural, de treinar e me dedicar 100% para o esporte.

2. Quais os benefícios que ele traz para sua carreira?

As Forças Armadas nos dão toda estrutura necessária de treinamento, médica e também financeira. Além de nos proporcionar a participação em competições internacionais militares e civis para nosso crescimento e desenvolvimento dentro do esporte. Além disso, o programa nos ensina o que todos os cidadãos deveriam saber, que é o patriotismo e o respeito pelo nossos símbolos nacionais.

3. Qual é a rotina de um atleta militar?

Nossa rotina não se diferencia muito da rotina dos outros atletas de alto rendimento. Temos nossos horários para treinamento e recuperação. No meu caso, eu treino de segunda a sábado de manhã e à tarde com treinamentos que variam dentro da piscina e na área de musculação, assim como o descanso e a fisioterapia que são fundamentais para nossa recuperação. Como militares, as instalações estão ao nosso dispor. Todo ano, nós, atletas militares, temos que fazer uma chamada “reciclagem” na qual as Forças Armadas fazem um reforço de tudo aquilo que aprendemos durante o período de treinamento que acontece assim que integramos o PAAR.

4. Quais são as suas obrigações?

Nossas obrigações como atletas militares são participar das competições militares nacionais e internacionais que somos convocados, sempre nos manter treinando e em comunicação com a Força que fazemos parte para que os chefes de delegação consigam acompanhar todo planejamento de treinamento e ajudar sempre que necessário, estar sempre em dia nas questões de fardamento e apresentação pessoal nos treinamento e perante a mídia assim como estampar o Símbolo da Força que representamos em nossos uniformes (clubes) para que possamos divulgar as Forças Armadas, representando-as tanto em âmbito nacional quanto internacional da melhor maneira e postura.

5. Como avalia o programa diante da crise econômica do País e a dificuldade dos atletas para conseguir patrocínios?

O PAAR é uma super oportunidade dos atletas se desenvolverem. Além da saúde que proporciona, o esporte é um aliado à educação educação e uma forma de melhorar a segurança pública. Quando investimos no esporte, estamos estruturando melhores cidadãos para a vida, construindo sonhos naqueles que nunca imaginaram que um dia poderia ser um atleta e representar seu País, não digo só no alto rendimento, mas também para aquelas pessoas que buscam uma vida mais saudável ou uma conquista pessoal. Em nosso País, ser atleta é muito difícil, conseguir patrocinadores é ainda mais difícil. As grandes empresas sempre buscam os atletas já prontos e não nos dão sempre aquilo que mais precisamos, que é uma estrutura adequada de treinamento e profissionais qualificados que consigam lapidar uma atleta em desenvolvimento até chegar no alto rendimento as Forças Armadas fazem em muitos casos. O PAAR está sendo de extrema importância para sobrevivência de muitos atletas que necessitam dele para continuarem no esporte em busca de realizar seus objetivos. Apesar de todo investimento feito, volto a dizer, investir no esporte é sim investir em educação, saúde e segurança pública de uma só vez.

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